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24 de outubro de 2019

A cruz é uma experiência sempre provisória

Ana Lydia, professora da UNIFESP, fez doutorado em Nutrição na Universidade de Cambridge. Foi pesquisadora visitante do MIT e é conselheira do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

Quando nós sofremos por algum motivo, fazemos quase sempre a experiência enganosa de que este sofrimento parece que nunca vai acabar. Parece que o nosso afundar-se ali naquela dor é definitivo, sem fim. E isso é um sintoma do próprio mal que nos assola, seguramente colocado ali pelo pai das trevas. No entanto, não é assim, pois no mundo que Deus criou e governa, a cruz é invariavelmente uma passagem, uma experiência provisória.

Um bispo italiano, Dom Antonio Bello, em uma de suas homilias quaresmais, escreveu algo lindo e verdadeiro sobre a provisoriedade da cruz: “Na antiga catedral de Molfetta, havia um grande crucifixo de terracota. O pároco, esperando para resolver onde colocá-lo definitivamente, encostou-o na parede da sacristia e colocou um cartão com a inscrição: ‘Localização provisória’. A escrita, que a princípio eu pensei que fosse o título da obra, parecia providencialmente inspirada, ponto de eu implorar ao pároco que não retirasse por qualquer motivo o crucifixo de lá, daquela parede nua, daquela posição precária, com aquele papelão amarelado”.

Localização provisória. Eu acho que não existe uma fórmula melhor para definir a cruz. Minha, sua cruz, não apenas a de Cristo. Coragem, você que sofre pregado em uma cadeira de rodas. Anime-se, você que sente as dores da solidão. Tenha confiança, você que bebe do cálice amargo do abandono. Não se desespere, doce mãe que deu à luz um filho malformado. Não maldiga, irmã, quando você se vê sendo destruída dia após dia por um mal que não perdoa. Seque suas lágrimas, irmão, você que foi esfaqueado pelas costas por aqueles que pensou que eram seus amigos. Não puxe os remos no barco, você que está cansado de lutar e que acumulou decepções sem fim. Não se abata, irmão pobre, se ninguém o ajuda, e as pessoas em vez de pão, o forçam a engolir pedaços de amargura. Não desanime, amigo desafortunado, que em sua vida viu tantos navios partirem, e você sempre permaneceu no chão. Coragem, sua cruz, mesmo se durasse toda uma vida, é sempre “local provisório”. O calvário onde está plantada não é uma área residencial. E o terreno desta colina, onde seu sofrimento é consumido, nunca será vendido como terreno de construção.

O Evangelho nos convida a considerar sempre a natureza provisória da cruz. “Do meio-dia até as três da tarde, a escuridão caiu sobre toda a terra.” Do meio-dia às três da tarde. Aqui estão as margens que delimitam o rio das lágrimas humanas. Do meio-dia às três da tarde.

Só por esse período foi concedido ao Senhor ficar no Gólgota. Fora daquele horário, é proibido estacionar. Após três horas, haverá remoção forçada de todas as cruzes. Uma estada mais longa também será considerada abusiva por Deus. Coragem, irmão que sofre. Há, também, para você a deposição da cruz. Coragem! Daqui a pouco, as trevas logo darão lugar à luz, a terra recuperará suas cores originais e o sol da Páscoa eclodirá entre as nuvens que fogem.

O que mais podemos desejar a todos os que sofrem (e são todos!) é que se lembrem de que a cruz é sempre provisória. Não deixe de avisar a todas as pessoas que você encontrar!

Publicado originalmente no jornal O São Paulo, edição de 16/10/2019.

Imagem Flickr.com

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