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12 de agosto de 2019

Corrupção, cultura e responsabilidade

Por Rafael Marcoccia, doutor em Ciências Políticas pela PUC-SP e professor do Centro Universitário da FEI

Estamos presenciando uma forte crise política no País. Mas, ainda que estejamos indignados com a situação, estamos também, em geral, passivos. Passivos porque, se é verdade que emitimos as nossas opiniões (de forma inteligente), cobramos as responsabilidades (como temos mesmo de fazer) e exigimos a justiça, ao mesmo tempo, assistimos aos acontecimentos da crise como se fossem uma realidade distante de nós, sem nos reconhecermos como parte dela.

Somos parte da crise não simplesmente porque somos afetados por ela, mas porque ela própria é fruto do nosso posicionamento. Podemos defender ou não o atual governo, gostar ou não do atual presidente, ser de direita ou de esquerda. Ou ainda, querer novas eleições logo ou aguardar o fim de 2018. Mas, em geral, o que mais se lê na imprensa e nas redes sociais, ou se ouve nas conversas nas ruas, nos bares com os amigos, parte da mesma premissa: depositamos a responsabilidade de mudar a sociedade, que é de todos os que a compõem, em um único membro, o presidente, ou, no máximo, em uma classe, a política.

Frustrados em nossas expectativas, encontramo-nos indignados e desanimados, e o discurso gira em torno de frases como “político é tudo igual mesmo”, ou “temos que punir os culpados”, ou ainda “o Brasil não tem jeito”. Esse discurso do momento pode carregar dois problemas: culpar sempre o outro; e partir de um posicionamento que se satisfaça apenas com a punição.

Esses problemas parecem ter sua origem na nossa cultura, que privilegia uma postura individualista. Percebemos a gravidade dos fatos, mas nos interessamos mais pelas nossas obrigações pessoais do dia a dia. E a ideia que acaba prevalecendo é a de que “tenho minha vida para levar”. Assim, colocamos os nossos problemas individuais como sendo prioritários em relação aos sociais. Não entendemos que os problemas sociais são igualmente relevantes também para toda pessoa. E isso é também uma forma de corrupção. Santo Agostinho dizia que corrupção é o coração (cor) rompido (rupto).

Há, então, níveis de corrupção. Uma corrupção em nível político-social, como a que nós temos visto. Uma corrupção cotidiana, o “jeitinho brasileiro”, em que são cometidas infrações aceitas e acobertadas pela sociedade. E, por fim, uma corrupção individual, pela qual a pessoa abandona seus valores e aspirações mais íntimas em função das imposições da própria dinâmica social atual. A crença na solidariedade, ou a ideia de que ela nos levaria a construir um mundo melhor, é substituída pelo medo da violência, pela falta de confiança no outro, fazendo com que pensemos que apostar no ser humano é uma postura demasiada ingênua para os dias de hoje.

Contudo, ainda que constatemos uma marca forte do individualismo em nossa cultura, e que a corrupção esteja presente tanto no nível social quanto no pessoal, encontramos diversos exemplos de atos verdadeiramente solidários, ou melhor, verdadeiramente sociais em nossa cultura.

Sendo assim, o que parece razoável é pensarmos nos problemas políticos que o País vem passando, passou e provavelmente irá passar, não de uma maneira passiva, em que apenas se emite uma opinião ou se exige um direito (como o da punição), mas valorizando espaços de produção de cultura real que nos sustentem, a todos (políticos e homens comuns), em uma posição construtiva, capaz de favorecer a autocrítica e a retomada contínua dos ideais.

Publicação original: Jornal O São Paulo, 13 de setembro de 2017.


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