Close
Diálogo com Gustavo Adolfo Santos, doutor em Teoria Política pela Catholic University of America, onde estudou a dimensão política do personalismo, Vice-Diretor Presidente da Oficina Municipal – SP.

Doutrina social da Igreja, políticas públicas e ideologias

Existe um evidente impulso em direção à verdade em todo ser humano. Ninguém gosta de ser enganado. Contudo, vivemos num contexto permeado de “fake news” e formulações ideológicas. Muitos chegam a pensar que a “pós-verdade”, a desistência sistemática de alcançar a verdade, é uma libertação.

Na sociedade atual, a realidade se apresenta tão complexa e plural que se torna difícil reconhecer a verdade. Porém, nesse aspecto, mais do que o mundo, foi nossa compreensão da realidade que mudou. Complexidade e pluralidade sempre foram inerentes à realidade, mas agora estamos mais conscientes desse fato que no passado. Assim, também nos damos conta da presença das ideologias e de sua influência. E frequentemente nos sentimos impotentes diante delas.

Nos debates públicos, gregos e troianos se atacam mutuamente, denunciando a ideologia um do outro. Acusações de doutrinação ideológica são frequentes. Muitos temem os perigos que poderiam ser trazidos por essas ideologias. A doutrinação, venha ela de grupos políticos, de professores ou mesmo do Estado, pode fazer mal a nossas crianças. Podemos ser manipulados por propostas que se apresentam como boas, mas que no fundo são contrárias a nossas convicções. Quando pessoas ideológicas ocupam o Estado, podem eliminem nossa liberdade e nossa identidade.

Essa situação cria um clima dominado pela desconfiança. Até sobre as políticas públicas voltadas à realização do bem comum estão sob suspeita. Quais seriam motivadas pela justiça social e a necessidade de atender os mais frágeis? Quais nasceriam de construções ideológicas, falseando a realidade, visando a dominação das consciências e aumentando as injustiças?

No Brasil, o debate cerca principalmente as instituições de ensino e os programas educacionais (vide Escola sem Partido), o trabalho dos veículos de notícias, os serviços das organizações não-governamentais e as diretrizes de alguns órgãos de governo. Como a doutrina social da Igreja pode nos ajudar nessa complexa situação?

 

Doutrina social da Igreja, políticas públicas e ideologias: contra o reducionismo

O que é ideologia? Frequentemente usamos essa palavra para nomear qualquer conjunto de ideias minimamente estruturadas. Numa visão aguerrida, ideologia é a ideia falsa dos outros (e aí sempre supomos que as nossas ideais são verdadeiras). Mas essas concepções não correspondem à doutrina social da Igreja.

O magistério católico se refere a ideologia para indicar uma visão reduzida da pessoa e da realidade. Vejamos as frases a seguir (grifos nossos). “Qualquer visão totalitária da sociedade e do Estado e qualquer ideologia puramente intramundana do progresso são contrárias à verdade integral da pessoa humana e ao desígnio de Deus na história” (Compêndio de Doutrina Social da Igreja, 2004, CDSI 48). “O empenho do cristianismo no âmbito cultural se opõe a todas as visões redutivas e ideológicas do homem e da vida” (CDSI 558).

Percebemos assim porque o termo “integral” é tão importante na doutrina social da Igreja. Humanismo integral, desenvolvimento humano integral, ecologia integral se opõem a uma visão ideológica da pessoa, do desenvolvimento e da defesa do meio ambiente.

 

Doutrina social da Igreja, políticas públicas e ideologias: muitas possibilidades

Também é importante perceber que a doutrina social da Igreja reconhece a existência de muitas ideologias. Nem sempre o problema é com a concepção de fundo de uma corrente de pensamento, mas com seu uso redutivo em contextos específicos.

No caso da ideologia materialista, por exemplo, estamos diante de um problema de fundo. O materialismo nega a abertura espiritual do ser humano e essa redução de fundo compromete todo o seu edifício conceitual. Já o cientificismo é a exacerbação do método científico, levando à negação daquilo que não pode ser verificado empiricamente. O cientificismo também pode negar a dimensão espiritual da pessoa, mas agora o problema não está na base da reflexão. Se bem utilizado, reconhecendo-se seu limite, o método científico não é redutivista e, portanto, a ciência não é uma ideologia.

Além destas, entre as ideologias mais citadas pelo magistério, temos: o coletivismo comunista e seu oposto, o individualismo liberal, os nacionalismos, o nihilismo e o relativismo. A expressão “ideologia de gênero” não é frequente no magistério, mas se encontram muitas citações sobre a questão da complementaridade e do respeito à diferença entre os sexos.

 

Doutrina social da Igreja, políticas públicas e ideologias: a integralidade e a verdade

Mas então, diante da pluralidade de posições e ofertas ideológicas, como encontrar a verdade? O critério implícito na doutrina social da Igreja é a busca da integralidade. A verdade acolhe toda a nossa humanidade, sem deixar nada para trás. Se a ideologia é uma visão reduzida, o melhor modo de enfrentá-la é ter uma visão integral da realidade.

É importante observar que o magistério não costuma incentivar os debates ideológicos. Nesses debates, uma ideia reduzida tende a ser oposta a outra ideia, que quase sempre acabará sendo vista de forma também reduzida. Por isso, frequentemente as críticas às ideologias coletivistas são colocadas ao lado das críticas ao individualismo liberal. Desse modo, procura-se evitar a adoção de uma ideologia em contraposição a outra e a instrumentalização ideológica da própria doutrina cristã.

Por isso, na doutrina social, mais que “combater as ideologias”, encontramos o convite para buscar a verdade. “Pela fidelidade à voz da consciência, os cristãos estão unidos aos demais homens, no dever de buscar a verdade e de nela resolver tantos problemas morais que surgem na vida individual e social” (Gaudium et Spes, GS 16)

Mas, para isso, é importante compreender que não somos “donos da verdade”. Nessa perspectiva, só reduziríamos a verdade a uma ideologia a mais. “Sem dúvida, não somos nós que possuímos a verdade, mas é ela que nos possui a nós: Cristo, que é a Verdade, tomou-nos pela mão e, no caminho da nossa busca apaixonada de conhecimento, sabemos que a sua mão nos sustenta firmemente. O fato de sermos interiormente sustentados pela mão de Cristo torna-nos simultaneamente livres e seguros. Livres: se somos sustentados por Ele, podemos, abertamente e sem medo, entrar em qualquer diálogo. Seguros, porque Ele não nos deixa, a não ser que sejamos nós mesmos a desligar-nos d’Ele. Unidos a Ele, estamos na luz da verdade” (BENTO XVI. Discurso à Cúria Romana na apresentação de votos natalícios. Vaticano, 21 de dezembro de 2012).

 

Doutrina social da Igreja, políticas públicas e ideologias: diálogo e testemunho

Nesse caminho de busca da verdade, o diálogo é sempre fundamental. Contudo, esse diálogo não é justo se quem dialoga não está disposto a mudar, para compreender a verdade. Diz Bento XVI: “Assim, ambas as partes, aproximando-se passo a passo da verdade, avançam e caminham para uma maior partilha, que se funda sobre a unidade da verdade” (BENTO XVI. Op. cit.).

Não se trata de um choque de ideias, mas do testemunho de uma verdade que se viu, de uma integralidade de vida que se experimentou. “O conteúdo do testemunho cristão não é uma teoria, não é uma ideologia, um sistema complexo de preceitos e proibições nem um moralismo, mas é uma mensagem de salvação, um evento concreto, aliás, uma Pessoa: é Cristo ressuscitado” (FRANCISCO, Regina Coeli, 19 de abril de 2015).

Na educação, essas considerações são particularmente significativas. O método católico para um ensino não-ideológico não é o de proibir a expressão dos demais, mas sim expressar a verdade que se encontrou (testemunhar). Para uma visão adequada do papel do professor na educação, dentro de uma perspectiva católica, é útil ler “O leigo católico, testemunha da fé na Escola” (1982), da SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA A EDUCAÇÃO CATÓLICA.

Tempos de grande confusão ideológica, exigem um firme compromisso de buscar pessoal da Verdade e testemunho. Ideologias são vencidas não por mais ideologias, e sim por mais testemunho.

 

Um exemplo simples

Há relativamente pouco tempo, circulou nas redes sociais brasileiras um vídeo curto, no qual vários médicos repetiam a frase: “sou a favor das duas vidas”. Referiam-se à vida da mãe e à do feto, numa alusão ao aborto. A proposta ilustra bem o conceito de integral, em oposição ao ideológico.

Nas situações de aborto, existe o direito à vida da criança, mas também existe uma realidade de sofrimento e dificuldade para a mãe. Só olhar para a situação da mulher que quer abortar é ideológico, pois omite toda a realidade da criança. Só defender a criança, sem procurar apoiar a mãe para que enfrente as adversidades da situação, também é ideológico, pois não reconhece uma parte relevante da realidade. A proposta integral reconhece o valor das duas vidas e se solidariza com ambas.

Não basta um discurso correto, as pessoas perceberão essa integralidade à medida que ela for testemunhada, na prática. Mas não é difícil perceber que um trabalho pró-vida que acolhe e fortalece a mãe, para que ela desista do aborto e possa realizar-se junto com seu filho, “desmonta” argumentos ideológicos de qualquer tipo.

Esse testemunho de um “amor integral”, aplicado às vários situações, e a melhor defesa contra qualquer ideologia.

 

Pergunta

Quais são as ameaças ideológicas que você encontra com mais frequência em sua realidade e o que pode fazer para enfrentá-las?

Veja também: Modelos de Estado  *  SaúdeEducação  Segurança públicaMeio ambiente  *  Previdência Social  *  (Breve) Transportes  *  Migrantes e refugiadosFamília  Voluntariado e Terceiro Setor *  Finanças públicas  *  DemocraciaIdeologia  *  (Breve) Gestão de políticas públicas.