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23 de dezembro de 2020

O maravilhamento e o sentido do Natal

Francisco Borba Ribeiro Neto

 

“A crença em Deus não muda realmente a vida. É outra coisa que muda a vida. Se a crença em Deus mudasse a vida não teria sido necessário que Maria desse a luz”. O trecho, para a maioria de nós, oscila entre o óbvio e o escandaloso. Num obituário do autor, o padre italiano Giacomo Tantardini (1946-2012), um de seus grandes amigos, o então Cardeal José Mário Bergoglio, escreveu: “ele deixou as pegadas de um homem-menino que nunca deixou de se maravilhar. Dom Giacomo, o homem do maravilhamento; o homem que se deixou maravilhar por Deus”. As duas citações se completam e nos ajudam a perceber melhor as dificuldades que a mentalidade moderna cria para experimentarmos o mistério de Deus em nossa vida.

É obvio que não é a crença em Deus que muda a nossa vida (no sentido de vivermos a Novidade evangélica). Os fariseus eram modelo de pessoas que acreditavam em Deus; terroristas fanáticos morrem por acreditar em Deus; na história, não faltam exemplos de homens maus que acreditavam em Deus – alguns até usaram sua crença para justificar suas maldades. Ao mesmo tempo, porém, não se pode negar um empenho moral para com o bem por parte das pessoas de fé. Crer em Deus, normalmente, nos faz querer ser melhores. Daí que o pensamento acima nos escandalize sobre certo aspecto.

 

O maravilhamento do homem-menino

O pensamento de Tantardini se ilumina a partir do comentário de Bergoglio. Quando acontece a mudança de vida radical, proposta por Cristo, nos maravilhamos pela presença de Deus em nossa vida. É o fascínio diante da constatação da obra de Deus que nos move em direção a Ele. A crença racional tem seu valor, como veremos adiante, mas não se compara à maravilha da própria presença de Deus no mundo.

Para nós, filhos da mentalidade moderna, é difícil entender essas coisas. Educamos e fomos educados – mesmo que não desejássemos – numa mentalidade antropocêntrica, onde a consciência individual é a medida de todas as coisas, até mesmo de nossa adesão a Deus. Aprendemos a nos orientar por valores como a autonomia e a independência pessoal, a racionalidade, a responsabilidade individual, a tenacidade. São todos valores justos e bons, em nossa relação com os outros seres humanos e as coisas do mundo. Porém, a relação com Deus acontece numa outra lógica, a da dependência, da impotência, da surpresa, do pedido, da gratuidade e da misericórdia.

Numa postura justa, os dois conjuntos de valores se complementam. Aquele que depende de Deus se torna autônomo em relação aos poderes do mundo, a constatação da própria impotência gera a coragem para se lançar nos arrojados empreendimentos do Amor, a gratidão pela misericórdia se manifesta como responsabilidade pessoal. Contudo, o que acontece frequentemente é uma interpretação antropocêntrica da própria fé, na qual a crença em Deus e a coerência com os valores da fé é que parecem fazer a diferença. Nessa visão reduzida, o que transforma a vida e o mundo não é a graça que age no ser humano visitado por Deus, mas sim a vontade e a coerência de um ser humano confrontado por normas supostamente emanadas da Divindade.

Era contra essa redução da experiência cristã que se rebelava o “homem-menino” Tantadini, repleto de maravilhamento e fascínio, que impressionou o Cardeal Bergoglio.

 

O exemplo dos casais apaixonados

O matrimônio nos ajuda a entender essa relação entre o maravilhamento e os valores da fé. A crença na indissolubilidade do matrimônio pode nos ajudar a não fazer alguma besteira ainda maior num momento de crise conjugal. Mas não é ela, em si, que salva um matrimônio e o torna feliz. Um casamento sustentado apenas por essa crença se torna um longo e penoso calvário. O valor desse sacrifício é enorme, mas não é aquilo que desejamos para nós mesmos ou para aqueles que amamos. É a graça – que vem de forma surpreendente, nos encontros interpessoais, na vida sacramental, no olhar atento para a realidade e para os dons de uma vida compartilhada – que faz com que se redescubra, no outro, aquele fascínio e aquela beleza que um dia encantou aos cônjuges.

Numa crise, a crença na indissolubilidade do matrimônio nos ajuda na medida que nos põe numa postura de confiança no sacramento, de pedido e espera pela ação da graça, que nos impede de fazer erros ainda maiores. Mas são a graça e a própria presença do outro que nos permitem recuperar a beleza do casamento. Aliás, a crença na indissolubilidade do matrimônio poderia até se tornar um empecilho à ação da graça do sacramento, se um cônjuge pensasse que, como o casamento é indissolúvel, não precisava mais se dedicar ao bem do outro, a fascinar e cativar, a cada dia, a pessoa amada.

Assim é com todas as coisas da fé. Os valores, e nossa adesão a eles, são muito importantes. Mas, em última análise, é a presença objetiva de Deus que vem até nós que dá sentido e gosto à nossa vida.

 

O fascínio do Natal

A sabedoria cristã repete, a cada ano, que o Natal não é apenas um acontecimento ocorrido na Palestina, há dois mil anos. Ele acontece sempre, em todos os lugares do mundo, na vida de cada cristão. A consciência desse encontro fascinante, dessa experiência de amor e maravilhamento, nos dá a força necessária para mudarmos nossa vida, “fazermos as coisas certas”. É Jesus, que veio e que continua vindo em nossa vida, que traz o gosto de vida nova, o sabor e o sentido que buscamos para nossa existência.

 

Imagem: Obra de Cláudio Pastro

One Comment on “O maravilhamento e o sentido do Natal

Wilson Teixeira
26 de dezembro de 2020 em 17:42

Professor Borba, Feliz Natal! Obrigado pelo belo texto, de fato Cristianismo é “encontro”, encontro pessoal com Cristo, o próprio Deus; é isto que deixa-nos maravilhados. Fora disso fica somente o poder, mesmo aquele em nome de Deus, que por óbvio não é Cristianismo.

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