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24 de outubro de 2019

A cultura da misericórdia

Marcelo Cypriano Motta, advogado, foi contemplado com a Medalha “São Paulo Apóstolo” 2018 e atua na “Promoção da Cultura da Misericórdia” junto ao Núcleo Fé e Cultura da PUC/SP

 

Neste início do novo milênio, diante do vasto horizonte pastoral da Igreja, “Partir de Cristo” foi a grande e renovada indicação de S. João Paulo II (cf. Novo millenio ineunte, NMI 29-41), visando “suscitar em nós um dinamismo novo” e permitir avançarmos para águas mais profundas (cf. Lc 5,4 ss.).

 

Partir de Cristo Misericordioso

Partir de Cristo pressupõe um verdadeiro cristocentrismo compreendido desde o próprio Mistério de Cristo, da “economia do mistério” (Ef 3,9), cuja essência é o “desígnio benevolente” do Pai, desígnio de amor e infinita misericórdia (cf. Ef 1,9). Partir de Cristo significa, em primeiro lugar, contemplar esse mistério no coração traspassado do Crucificado, do qual jorram sangue e água (cf. Jo 19,34 ss.), pois é “a partir desse olhar contemplativo que o cristão encontra o caminho do seu viver e amar” (cf. Bento XVI, Deus caritas est, DCE 12).

O Papa Francisco declarou esperar um “Pentecostes teológico”, no qual, antes de tudo, deve-se partir do Evangelho da misericórdia, da “centralidade da misericórdia”, vez que “a teologia depois da Veritatis gaudium é querigmática, uma teologia do discernimento, da misericórdia…” (Discurso de 21 de junho de 2019).

Isso só pode acontecer mediante a via de sempre do cristocentrismo, isto é, do mistério de Cristo como um desígnio eterno de misericórdia: “De fato, o ‘Original’ que à sagrada doutrina importa conhecer antes de tudo e, portanto, o primeiro objeto de interesse teológico, é o Crucificado glorioso predestinado desde sempre, e, portanto, sua vida com seus acontecimentos, nos quais ocorre a manifestação detalhada do eterno plano gerado e motivado pela divina misericórdia. Neste sentido, a teologia cristã é originalmente crística” (BIFFI, I, Um método infalível para renovar a teologia. L’Osservatore Romano, 27 de julho de 2010).

Mas como no tempo da Igreja toda a economia da salvação é uma economia sacramental, também a economia da misericórdia exige uma abordagem teológico-litúrgica. Bento XVI, em seu Discurso inaugural da V Conferência de Aparecida, afirmou: “Só da Eucaristia brotará a civilização do amor, que transformará a América Latina e o Caribe para que, além de ser o continente da Esperança, seja também o continente do Amor!”. Para ele, “transformar-se em amor é a única adoração verdadeira” (Opera Omnia, Teologia della Liturgia, vol. XI, p. 58, LEV, 2010), uma humanidade que, transformada em amor, é uma glorificação viva de Deus, o culto verdadeiro que Deus espera. O homem vivo – isto é, que se tornou glória para Deus – é ele mesmo adoração, sacrifício.

É uma compreensão cristocêntrica, que se dá em três níveis ou três passos:  mistério, celebração e vida (cultura). A partir dessa fórmula podemos igualmente dizer que uma cultura da misericórdia brota da Eucaristia, até porque o Documento de Aparecida caminha sempre no sentido da transfiguração da cultura. Na verdade, é a “cultura” que está em situação escatológica, portanto, a anelada civilização do amor, que se coloca como a meta da Doutrina Social da Igreja, depende, obrigatoriamente, do florescimento de uma cultura da misericórdia, se quisermos ser coerentes com tudo o que foi exposto acima.

Para que amadureça como cultura, essa percepção cristocêntrica da misericórdia precisa articular-se – metodologicamente – como experiência vivida do Mistério (o tempo), momentos litúrgicos (o culto) e construção de mentalidades e ações concretas no mundo (a cultura). Assim caminhamos para cada vez mais “Partir de Cristo Misericordioso”.

 

A perspectiva da Misericórdia

Em que propriamente deve consistir uma perspectiva da misericórdia que possa auxiliar e orientar a construção de uma cultura da misericórdia na Igreja e no mundo, desde o coração do Evangelho? Santa Teresa do Menino Jesus nos oferece uma sublime indicação: “A mim, Ele deu sua infinita Misericórdia e é através dela que contemplo e adoro as outras perfeições divinas!…” (Manuscrito A, Obras Completas, p. 162, Paulus, 2002; os grifos são do original). Esse olhar de Terezinha faz iluminar a centralidade da misericórdia no mistério da nossa fé pascal e eucarística, nas nossas celebrações sacramentais, na vida que se torna glória para Deus e na oração, ou seja, no mistério acreditado, celebrado e vivido (cf. Catecismo da Igreja Católica, 2558).

A transversalidade da misericórdia como que constitui a perspectiva, por excelência, a guiar e promover a tarefa da nova evangelização. Com efeito, abre-se para a Igreja no “início do novo milênio” uma perspectiva temporal, relativa ao tempo da misericórdia, já que o mistério pascal – interpretado por São João Paulo II como mistério da divina misericórdia (cf. Dives in misericordia, 7) – “está situado no centro do mistério do tempo” (NMI 35); portanto, torna-se inexorável que a Igreja “em saída” se oriente, em primeiro lugar, pela perspectiva do tempo da misericórdia. Isto em conexão com o culto da misericórdia na oitava da Páscoa (lex orandi, lex credendi): “A misericórdia divina! Eis o dom pascal que a Igreja recebe de Cristo ressuscitado e oferece à Igreja no alvorecer do terceiro milênio” (São João Paulo II, Homilia no Domingo da Divina Misericórdia, 22 de abril de 2001).

Jesus Cristo misericordioso é o caminho para a construção de um novo humanismo cristão mediante a categoria teológica “cultura” privilegiada pelo Concílio Vaticano II (GS 55), o que constitui a cultura da misericórdia. Esta não é um sucedâneo da civilização do amor e sim o meio de realizá-la. Por isso, o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, na sua Conclusão (CDSI 575-583), “Por uma Civilização do Amor”, afirma ser necessário “tornar a partir da fé em Cristo”, por meio de “uma firme esperança”, para “tornar a sociedade mais humana” (no plano econômico, político, cultural), pois “somente o amor (e portanto também o amor benevolente que chamamos ‘misericórdia’), é capaz de restituir o homem a si próprio”. Assim, uma Igreja “em saída” é chamada a adotar a perspectiva da misericórdia em sua tríplice dimensão – mistério, celebração e vida.

Nos desafios cotidianos, misericórdia não é comiseração que mais humilha do que ampara o sofredor, nem assistencialismo que retira o protagonismo do assistido, laxismo ou relativismo que obliteram a verdade. Trata-se de uma posição de amor sincero, que reconhece as necessidades, os limites e os erros tanto nossos quanto dos outros, se comprometendo com o bem de cada um. Onde existe sofrimento, material, psicológico ou espiritual; conflito ou violência, ali falta a misericórdia, ali ela fará a diferença. Vivemos num mundo carente da consciência da misericórdia!

O amor misericordioso, ao inspirar uma vida de autodoação e no plano natural exigir a justiça, só encontra sua plena realização na referência a Deus, e assim como começamos, também podemos terminar, à imitação do Compêndio, com a Doutora da Igreja: “Ao entardecer desta vida, comparecerei diante de Vós com as mãos vazias, pois não Vos peço, Senhor, que contabilizeis as minhas obras. Todas as nossas justiças têm manchas aos Vossos olhos. Quero, portanto, revestir-me da Vossa justiça e receber do Vosso amor a posse eterna de Vós mesmo…” (CDSI 583).

 

Artigos originalmente publicados no jornal O São Paulo, em 14/08/2019 e 05/09/2019

Foto: Lawrence Jackson

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