Política e eleições a partir das reflexões do Papa Francisco e da Doutrina Social da Igreja

Diante de um quadro político extremamente agressivo e polarizado, as comunidades católicas têm tido dificuldade para dialogar sobre as escolhas a serem feitas nas eleições que se aproximam. Multiplicam-se, dentro do ambiente eclesial, as “bolhas ideológicas”, onde as pessoas tendem a concordar entre si, mas não contemplam os argumentos contrários. Nesse clima, as reflexões podem até ser frutíferas, permitindo aprofundar posições já cristalizadas, mas não colaboram para o diálogo constantemente proposto pelo Papa Francisco (cf. Discurso no encontro com a classe dirigente do Brasil; Querida Amazonia, QA 108; Fratelli tutti, FT 198ss).

Em função disso o Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP propõe, a partir do Compêndio da Doutrina Social da Igreja e da encíclica Fratelli tutti, do Papa Francisco, a reflexão sobre três questões polêmicas relacionadas à política e às eleições que se aproximam:

  1. Estamos cansados de política, devemos mesmo refletir sobre isso? Como dialogar sem dividir nossas comunidades e nossas famílias?
  2. Os católicos deveriam ter um partido ou votar obrigatoriamente em alguns candidatos e não em outros?
  3. Existem mesmo princípios irrenunciáveis que devem orientar as escolhas políticas dos católicos? Se existem, quais são?

Para cada questão é apresentada a posição da Igreja, conforme expressa nos documentos citados, e uma discussão sobre as objeções levantadas com mais frequência a essas posições. Existe sempre, em cada resposta, a preocupação de ouvir e responder às objeções levantadas por posições antagônicas no debate ideológico, buscando construir uma visão integral e não partidarizada de cada tema.

Para aprofundar qualquer um desses temas ou para solicitar assessoria para encontros, envie um e-mail fecultura@pucsp.br.

A defesa da vida sem partidarismos

Uma declaração, no mínimo infeliz, de Lula trouxe de volta o tema do aborto para o debate eleitoral. Os textos do Magistério são bastante claros a esse respeito: “a consciência cristã bem formada não permite a ninguém favorecer, com o próprio voto, a atuação de um programa político ou de uma só lei, onde os conteúdos fundamentais da fé e da moral sejam subvertidos com a apresentação de propostas alternativas ou contrárias aos mesmos” (CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Nota doutrinal sobre algumas questões relativas à participação e comportamento dos católicos na vida política. Roma, 2002). Nesse mesmo documento, a defesa da vida, condenando o aborto e a eutanásia, são considerados como “princípios irrenunciáveis”. Daí o famoso lema “católico não vota em abortista”, simples e prático, que deveria funcionar como uma espécie de “divisor de águas” moral a orientar nosso voto. Contudo, muitos católicos se sentem incomodados com sua aplicação automática e sem questionamentos. Esse texto é voltado justamente a esses que se sentem incomodados e procura explicar alguns dos problemas mais comumente percebidos.

A insegurança se deve a dois fatores. Muitos políticos, sem grande compromisso com o bem comum, até mesmo corruptos e mal-intencionados, perceberam que condenar publicamente o aborto lhes garantia votos cristãos (mesmo que sua atuação, no conjunto, ficasse bem distante da construção do bem comum). Sabendo disso, muitos católicos bem formados hesitam em dar seu voto a esses candidatos. Por outro lado, a forte propaganda pró-aborto muitas vezes consegue ocultar o fato de que o embrião já é uma pessoa humana. Assim, candidatos bem-intencionados, mas ideologicamente contaminados, tomam posições pró-aborto – e como todo processo de convencimento não é exclusivamente racional, expor argumentos é importante, mas não basta para mudar a posição dessas pessoas bem-intencionadas, mas ideologicamente contaminadas.

Os princípios irrenunciáveis não são só um

Essa dificuldade em relação aos políticos se deve, em grande parte, a uma visão reduzida que nós mesmos temos dos princípios irrenunciáveis. A própria Nota doutrinal acima citada, elenca vários “princípios irrenunciáveis”. Considera, por exemplo, a defesa e promoção da família; a liberdade de educação; a tutela social dos menores e a libertação das vítimas das modernas formas de escravidão; a liberdade religiosa; o progresso para uma economia que esteja ao serviço da pessoa e do bem comum; a paz, que “exige a recusa radical e absoluta da violência”.

Dentro de uma visão integral, na qual todos esses princípios sejam considerados (não apenas em termos abstratos, mas em suas implicações concretas em termos de políticas públicas), se evidencia quando a condenação do aborto é apenas uma posição demagógica de um político. Ao mesmo tempo, surgem vários canais de comunicação e testemunho, que ajudam na difícil (mas necessária) tarefa de mostrar para certas pessoas, bem-intencionadas moralmente, mas ideologicamente enganadas, o valor da vida do nascituro.

Nesse aspecto, um sério obstáculo a uma posição católica coerente é a tendência a um falso “realismo político”, que nos leva a não criticar certas posições dos políticos porque, na prática, renunciamos a alguns princípios em nome de outros. Assim, uns renunciam à defesa da vida porque acreditam que candidatos pró-aborto estão mais comprometidos com uma economia voltada à pessoa humana, enquanto outros renunciam a uma economia voltada ao bem comum para garantir votos contrários ao aborto. Mas o sentido dos princípios irrenunciáveis é justamente a negação desse falso “realismo político”, que abandona certos princípios em nome de uma lógica partidária. O católico bem formado cobra de seus candidatos o compromisso não com um princípio ou outro, mas com TODOS eles – mesmo quando isso pode levar a um aparente enfraquecimento partidário.

A primazia do direito à vida

Ainda que existam vários princípios irrenunciáveis, o direito à vida tem evidentemente um lugar preponderante. Em primeiro lugar, nenhum dos demais princípios poderão ser aplicados se a pessoa não estiver viva. Além disso, tem um significado cultural: a primazia da vida se identifica com a primazia da pessoa, em oposição ao economicismo, ao coletivismo e ao individualismo, ao utilitarismo e à “cultura do descarte”.

Sua força, contudo, deve-se também a outros fatores, mais práticos e menos conceituais. A condenação do aborto tem uma carga afetiva inegável. Um dos aspectos mais cruéis daquilo que São João Paulo II chamou de “cultura da morte” é justamente a verdadeira amputação da humanidade das pessoas, ao fazer com que elas não percebam a vida que pulsa na criança por nascer. Mas, para aqueles que ainda não foram submetidos a essa operação ideológica, é inegável a carga afetiva e existencial associada à defesa da vida.

Por fim, não podemos negar que a condenação do aborto é um critério político muito simples e fácil de entender. Um princípio como a economia a serviço do bem comum depende, para sua aplicação, de uma série de considerações de caráter econômico. Por exemplo, até que ponto o mercado é um território determinado apenas pela busca do lucro e até onde é uma condição para garantir a liberdade pessoal e a construção mais efetiva do bem comum? Mesmo quando pensamos especificamente na defesa da vida, até que ponto as estratégias contra a pandemia de Covid-19 eram realmente indispensáveis e até onde eram fruto de uma certa visão ideológica de sociedade? São questões polêmicas, difíceis de se tornarem critérios evidentes, enquanto a condenação do aborto é objetiva e fácil de entender.

A questão partidária

A Igreja não toma posições partidárias. O Compêndio da Doutrina Social da Igreja lembra que “as instâncias da fé cristã dificilmente são assimiláveis a uma única posição política: pretender que um partido ou uma corrente política correspondam completamente às exigências da fé e da vida cristã gera equívocos perigosos. O cristão não pode encontrar um partido que corresponda plenamente às exigências éticas que nascem da fé e da pertença à Igreja” (CDSI 573). A opção partidária de cada cristão é pessoal, respeitando-se os “limites dos partidos e posições não incompatíveis com a fé e os valores cristãos” (CDSI 574).

No Brasil, nenhum partido foi tão explícito na defesa do aborto quanto o PT. Mas, nesse sentido, ele serve para mostrar o quanto uma militância sincera e comprometida faz a diferença. O partido continua majoritariamente pró-aborto, porém foi obrigado a abrandar seus posicionamentos particularmente após a segunda campanha de Dilma Rousseff para a presidência, quando percebeu que poderia perder muitos votos católicos se permanecesse em sua posição original. Assim, um católico simpatizante do PT é particularmente convidado a se comprometer com a defesa da vida e se tornar um instrumento de transformação dentro do partido, sem nunca deixar de denunciar seus erros e maus-feitos em função de uma conivência política.

Os que não desejam votar no PT também não estão isentos de uma responsabilidade nessa situação. Espera-se deles uma atenção redobrada com outros aspectos da construção do bem comum, para evitar que políticos mal-intencionados se aproveitem dos princípios irrenunciáveis para serem eleitos e depois não se comprometerem com o bem comum. Também eles podem trair os ideais de uma sociedade melhor em função de uma conivência política.

Uma decisão pessoal

O voto é uma decisão pessoal. Espera-se que tomemos essa decisão à luz de um discernimento cristão e nos ajudando mutuamente. Nas palavras da Gaudium et Spes, “embora as soluções propostas por uma e outra parte, mesmo independentemente da sua intenção, sejam por muitos facilmente vinculadas à mensagem evangélica, devem, no entanto, lembrar-se de que a ninguém é permitido, em tais casos, invocar exclusivamente a favor da própria opinião a autoridade da Igreja. Mas procurem sempre esclarecer-se mutuamente, num diálogo sincero, salvaguardando a caridade recíproca e atendendo, antes de mais, ao bem comum” (GS 43).

Que o critério da defesa da vida seja um princípio de discernimento útil para todos nós e que ajude na construção de um Brasil melhor, na próxima eleição e em todas as demais.

Francisco Borba Ribeiro Neto

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Imagem: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:BentoXVI-37-10052007.jpg

Catolicismo e educação

Saúde, promoção social e educação são três dimensões das políticas públicas que não podem ser compreendidas, na história da humanidade, sem passar diretamente pela experiência das comunidades cristãs. Por outro lado, um dos maiores obstáculos tanto para o desenvolvimento econômico quanto humano de nosso país é justamente a insuficiência do sistema educacional. Nada mais justo, portanto, que a Campanha da Fraternidade 2022 nos convide a refletir e agir em prol da educação.

 

O problema da qualidade

O Brasil, com os esforços das últimas décadas, está obtendo resultados relativamente bons na tentativa de garantir o acesso à escola para todos (apesar da grande piora decorrente da pandemia). Contudo, obtêm resultados ruins em testes internacionais que avaliam o aprendizado dos alunos. A qualidade do nosso ensino é muito baixa, comprometendo o futuro dos estudantes e o desenvolvimento tanto econômico quanto social do País. Ainda que os problemas de acesso e permanência não estejam definitivamente superados, a qualidade é o grande desafio atual da escola brasileira. A má qualidade caminha lado a lado, por exemplo, com a desindustrialização da economia brasileira das últimas décadas. Impacta a produtividade, a oferta de postos de trabalho e até o aumento do custo de vida…

A universalização da educação (escola para todos) se ajusta bem aos interesses dos políticos. Podem usar o aumento do número de vagas, do tempo de permanência na escola, da distribuição de merendas, para mostrar seu trabalho e ganhar votos. A qualidade do ensino é mais difícil de ser capitalizada. Os pais muitas vezes têm menos escolaridade que seus filhos, não conseguem acompanhar o trabalho dos professores e nem têm a percepção clara das oportunidades que os jovens estão perdendo por um ensino falho. Ainda que um ensino de qualidade seja fundamental para o futuro dos jovens, das comunidades e do País, ele é pouco determinante na defesa dos interesses eleitorais de grande parte dos políticos.

A escola particular (que se pensa como empresa) e a confessional (que se pensa como serviço à comunidade) são alternativas à má qualidade do ensino público, mas enfrentam dois problemas. Aprofundam a desigualdade social brasileira, reduzindo as chances daqueles que não podem pagar uma boa escola. Além disso, como o conjunto do sistema tende a ser medido pelo ensino público, escolas particulares mesmo que fracas tenderão a parecer fazendo um bom serviço.

Um pacto pela educação

Oferecer educação de qualidade a todos é uma tarefa objetivamente desafiadora para o Estado brasileiro. Apesar de sermos uma das maiores economias do mundo e pagarmos impostos considerados altos, os governos têm relativamente pouco dinheiro para atender ao tamanho da população e cobrir nossa grande extensão territorial. Por isso, precisamos de uma boa gestão dos recursos materiais e humanos disponíveis.

Papa Francisco é um ardoroso defensor de um pacto educativo global, um compromisso de todos os grupos e organizações sociais para a implementação de um ensino humanista integral, inclusivo e eficiente. A ideia reflete, sem dúvida, um desejo de toda a população brasileira, mas os resultados ruins e os escândalos de corrupção e ideologização da educação mostram que os governos não tomam as decisões políticas adequadas para melhorar a qualidade do ensino.

O papel de Estado

A educação é fundamental tanto para o desenvolvimento pessoal de cada cidadão quanto para o da nação como um todo. Por isso, é uma responsabilidade inevitável do Estado. Mesmo países tidos como exemplo para o pensamento neoliberal tem políticas estatais para a educação e algum tipo de acesso público à escola. Contudo, existem vários caminhos diferentes pelos quais o Estado pode cumprir sua missão. É um dos setores onde o princípio da subsidiariedade pode ser mais bem aplicado.

Esse princípio, fundamental para a doutrina social da Igreja, especifica que as instâncias governamentais superiores devem auxiliar (subsidiar) tanto as inferiores quanto as inciativas sociais, evitando determiná-las e permitindo seu protagonismo. Assim, a federação deve apoiar os governos estaduais e esses aos municípios, bem como todos os entes estatais devem apoiar soluções nascidas e geridas pelas comunidades. No caso do sistema educacional brasileiro, em teoria o ensino básico é deixado a cargo dos municípios, o médio aos governos estaduais e o superior às universidades. Em muitos países, o Estado aporta dinheiro para organizações não governamentais para que essas possam oferecer ensino gratuito à população – uma prática possível, mas muito pouco frequente no Brasil.

Em teoria, quanto mais descentralizado for o sistema escolar, maior o controle e o protagonismo das comunidades e famílias na fiscalização e tomada de decisões referentes à educação dos jovens. Desse modo, a subsidiariedade deveria minimizar tanto os confrontos ideológicos entre pais e professores quanto o mau uso das verbas públicas. Contudo, a sociedade brasileira ainda é pouco participante, exerce pouco seu direito ao controle e à fiscalização dos serviços públicos.

Uma comunidade participativa

O sistema educacional brasileiro já é relativamente descentralizado – ainda que exista uma concentração de verbas nas mãos do governo federal que tem gerado uma série de escândalos nos últimos tempos. Essa descentralização gera uma multiplicidade de experiências que podem nos indicar quais seriam os melhores caminhos a serem seguidos para termos uma educação de qualidade. Dois elementos aparecem em todos os casos de sucesso: (1) o protagonismo de alguns (governantes, gestores escolares, organizações não-governamentais, professores, pais…) que olham realisticamente para os problemas e criam soluções; (2) uma comunidade, formada pelas famílias dos estudantes e outras pessoas comprometidas, que dá apoio a esses que se esforçam na criação de soluções. Onde falta um desses elementos, o outro – mesmo que exista – tem dificuldade para construir uma escola eficiente e inclusiva.

Nessa Campanha da Fraternidade, podemos nos perguntar se nossas comunidades católicas estão gerando esses protagonistas em nome da educação? Até que ponto estamos dando apoio àqueles que estão lutando pela educação, não só em nível nacional, mas nas escolas que nossos filhos estudam? Gestores, professores, pais e alunos não são criaturas de outro planeta. Somos nós mesmos, são as pessoas que se sentam a nosso lado na missa dominical ou no encontro comunitário. Por isso nossas comunidades são chamadas a refletir juntas e dar apoio às iniciativas em prol de uma educação melhor.

O que a comunidade pode fazer

Uma primeira responsabilidade de todos nós, até óbvia, é saber o que está acontecendo nas escolas, participar dos grupos que ajudam nas atividades das escolas, saber quais políticos estão se comprometendo efetivamente com a educação – sem demagogias ou mal uso dos recursos públicos. E, evidentemente, ajudar com votos e apoio aqueles realmente comprometidos. Mas existe muito mais que pode ser feito.

O acompanhamento dos pais é fundamental para que as crianças se sintam estimuladas e responsabilizadas com a aprendizagem. Infelizmente, muitas famílias não têm condições de dar esse apoio. As jornadas de trabalho, alongadas pelo tempo de deslocamento nas grandes cidades, são um obstáculo objetivo. Muitas vezes os jovens já estão num nível escolar que não foi frequentado pelos pais – que não se consideram preparados para acompanhar o desempenho dos filhos. Diante dos vários questionamentos que a mentalidade hegemônica lança à autoridade familiar, muitos pais se sentem inseguros e não cumprem seu papel de orientador e disciplinador, que continua sendo necessário.

Nossas comunidades podem fazer muito para ajudar os pais nessas situações. Desde reflexões compartilhadas sobre os problemas até auxílios práticos, como grupos de adultos que se alternam para cuidar dos filhos, criação de grupos de jovens e de espaços de convivência nas comunidades. As possibilidades são muitas e aparecem na medida que procuramos conhecer realisticamente os problemas e nos comprometer com sua solução.

Francisco Borba Ribeiro Neto

Leia também:
A Campanha da Fraternidade 2022 e o Pacto Educativo Global
A defesa da vida sem partidarismos

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A sabedoria cristã diante das enchentes e dos desastres naturais

Francisco Borba Ribeiro Neto

O tempo do Natal e do Ano Novo é frequentemente marcado por desastres naturais, como as enchentes que, neste ano, ocorreram na Bahia e em Minas Gerais. Para nossa pobre compreensão da realidade, é um paradoxo que as comemorações do nascimento do Menino Deus sejam marcadas por tanto sofrimento e tanta dor. A reflexão e a racionalização sobre esses acontecimentos não trarão conforto aos que estão sofrendo, a esses só podemos dar nossas orações e nossa solidariedade material. Nos ajudam, porém, a entrar mais no mistério de Deus, que faz chover sobre bons e maus (cf. Mt 5, 45-46).

Diante da aflição das vítimas e das perdas humanas e materiais provocadas pelas enchentes, é impossível não se perguntar: por que Deus permite tais tragédias? Bento XVI, numa visita ao Campo de Concentração de Auschwitz-Birkenau, onde milhares de judeus foram mortos pelos nazistas, se perguntava: “Onde estava Deus naqueles dias? Por que Ele silenciou?”. Mais adiante respondia: “Nós não podemos perscrutar o segredo de Deus, vemos apenas fragmentos e enganamo-nos se pretendemos eleger-nos a juízes de Deus e da história […] devemos elevar um grito humilde, mas insistente a Deus: Desperta! Não te esqueças da tua criatura, o homem! E o nosso grito a Deus deve ao mesmo tempo ser um grito que penetra o nosso próprio coração, para que desperte em nós a presença escondida de Deus, para que aquele poder que Ele depositou nos nossos corações não seja coberto e sufocado em nós pela lama do egoísmo, do medo dos homens, da indiferença e do oportunismo”.

 

Solidariedade e perseverança

Falando às vítimas do tríplice desastre (terremoto, maremoto e acidente nuclear) de Fukushima, no Japão, Papa Francisco observou: “Ninguém se ‘reconstrói’ sozinho, ninguém pode começar de novo sozinho. É essencial encontrar uma mão amiga, uma mão irmã, capaz de ajudar a erguer não só a cidade, mas também o olhar e a esperança […] Por isso, convido-vos a avançar um pouco cada dia na construção do futuro, baseado na solidariedade e empenho recíproco”.

A força da solidariedade é necessária não só para responder às necessidades materiais imediatas, mas para dar esperança e coragem para reconstruir a terra e a vida devastadas pela catástrofe. Todos nós fazemos, em algum momento da vida, a experiência de como uma companhia amiga nos ajuda a enfrentar as adversidades. O que vale para nós, talvez numa pequena relação pessoal, vale para toda a sociedade num momento de dificuldade.

Juntas, a perseverança e a solidariedade se tornam um sinal de esperança para o mundo. Francisco prossegue: “No trabalho contínuo de recuperação e reconstrução […] muitas mãos se devem juntar e muitos corações se devem unir como se fossem um só. Desta forma, as pessoas que sofreram receberão apoio e saberão que não foram esquecidas. Saberão que muitas pessoas compartilham, ativa e eficazmente, o seu sofrimento e continuarão a estender uma mão fraterna para ajudar. Mais uma vez, louvemos e demos graças por todos aqueles que procuraram, com simplicidade, aliviar o peso das vítimas. Que esta compaixão seja o caminho que permita a todos encontrar esperança, estabilidade e segurança para o futuro”.

Além disso, a empatia e o compromisso com os que sofrem nos ajudam a sair de nosso individualismo, a viver o encontro com nossos irmãos que sofrem e com o próprio Cristo. “A fé diz-nos que se faz a Cristo quanto se realiza em favor de quem se encontra na necessidade e no sofrimento (cf. Mt 25, 40)”, lembrou São João Paulo II numa visita a Assis, após o terremoto que destruiu a região no Ano Novo de 1998.

 

O papel do Estado

As ponderações da Igreja sobre os desastres naturais referem-se também a questões muito práticas. Numa intervenção comentando as consequências do “tsunami” que se abateu sobre o sudeste asiático em 2004, Dom Celestino Migliore, na época delegado da Santa Sé junto à ONU, lembrou a importância das ações humanitárias e da cooperação internacional em situações de desastre natural. Os recursos recebidos são sempre importantes, mas necessitam de estruturas capazes de recebê-los e dar-lhes rapidamente a melhor destinação. Além dos auxílios emergenciais que se seguem ao momento do desastre, observou que também são necessários apoios a médio e longo prazo, para o processo de reconstrução, sempre demorado e difícil.

Desastres ambientais, à primeira vista, parecem atingir a todos igualmente. Contudo, como notou Francisco na Laudato si’ (LS 25, 29, 48ss), os mais pobres são quase sempre os mais atingidos, pois moram em áreas de maior risco – tanto é que os jornais noticiam, como algo inesperado, quando um condomínio de luxo é afetado pelas inundações na Bahia ou pelos incêndios na Califórnia. Daí a atenção do delegado da Santa Sé, nesta intervenção, em sublinhar a importância da ação dos governos e da cooperação entre as nações para minimizar o sofrimento de todos, mas em particular desses mais vulneráveis.

Dom Celestino observou ainda: “A primeira e mais importante lição a tirar é o fato de que entre as pessoas simples existe uma enorme boa vontade, que muitas vezes permanece escondida. A solidariedade natural e sincera das populações do mundo saltou aos olhos de todos com evidência e, numa época em que os meios de comunicação internacionais contribuem para tornar o mundo cada vez mais semelhante a uma aldeia global, é consolador saber que um profundo sentido da nossa humanidade comum se manifestou rápida e positivamente em benefício dos sobreviventes desta tragédia. Enquanto a comunidade internacional ajudava pessoas reais em verdadeiras situações de necessidade, manifestava-se com clareza uma espontânea compreensão da centralidade da pessoa humana”.

 

A esperança que não é uma ilusão

Em sua intervenção, o delegado da Santa Sé salientou a importância da assistência religiosa e espiritual nesses contextos. Diante do sofrimento, da dor e da morte, todo ser humano sente a necessidade do consolo e da esperança que só a misericórdia de Deus pode proporcionar. Mas não seria essa uma ilusão piedosa, como acusam aqueles que não têm fé? Na verdade, só a experiência de ter a vida transformada pelo encontro com Cristo nos leva a uma fé realista na ação de Deus em momentos dramáticos. Bento XVI, na Spes salvi (SS 7), lembra que a fé não pode ser compreendida apenas como “acreditar em algo que não se vê”, ela é mais bem definida como o reconhecimento de uma novidade que já aconteceu, que nos faz ter esperança em coisas que ainda não estão dadas.

Nessa perspectiva, renovamos nossas orações para que cada vítima das enchentes desse final de ano possa, a seu modo, fazer a experiência dessa consolação e dessa esperança que desde já pode renovar a vida em cada um de nós.

Papa Francisco e a nova evangelização na Amazônia e no mundo

A contribuição da experiência eclesial latino-americana para a nova evangelização.
Esse artigo foi originalmente publicado na edição francesa da revista católica internacional Communio, num fascículo dedicado a apresentar ao público europeu a “teologia do povo”, versão argentina da teologia da libertação latino-americana.

 

São João Paulo II, na encíclica Redentoris missio (RM, 1990) escreveu que era “hora de comprometer todas as forças eclesiais para a nova evangelização e missão ad gentes.  Nenhum crente em Cristo, nenhuma instituição da Igreja pode escapar deste dever supremo: proclamar Cristo a todos os povos” (RM 3). Este é o grande significado do pontificado do Papa Francisco.

A Exortação Apostólica Pós-Sinodal “Querida Amazônia” (QA, 2020) é um documento particularmente oportuno para entender como a tradição eclesial da qual Bergoglio vem molda sua maneira de se engajar nessa nova evangelização. Surpreendentemente, a Amazônia é uma realidade particularmente adequada para entender os desafios da Igreja no mundo globalizado, onde a homogeneização cultural convive com a fragmentação multicultural, as riquezas do capitalismo convivem com a exclusão social e a pobreza dos subúrbios, o fascínio eterno pela beleza convive com o vazio da falta de sentido da vida.[1]

Dois papas que vieram “de longe”

Os tempos passam e nossa memória muitas vezes esquece. Há pouco mais de 40 anos, São João Paulo II se apresentou ao mundo dizendo: “Os Eminentes Cardeais chamaram um novo bispo de Roma. Eles o chamavam de um país distante, muito longe”.[2] Palavras semelhantes às do Papa Francisco, ao apresentar-se: “o dever do Conclave era dar um Bispo a Roma. Parece que meus irmãos Cardeais foram buscá-lo quase no fim do mundo.[3]

Os dois papas mais carismáticos do pós-concílio vieram de fora do chamado “Primeiro Mundo”, rico e desenvolvido. Vieram de países que historicamente enfrentaram submissão às potências mundiais, pobreza e opressão. Ambos viveram sob regimes ditatoriais, em nações muito católicas e patrióticas. No entanto, um veio do norte, o outro do sul; um enfrentou o autoritarismo de esquerda, o outro, o autoritarismo de direita. Por um lado, a identidade católica teve que resistir aos governos ateus; por outro lado, essa mesma identidade teve que resistir à hipocrisia dos governos que se autodenominavam católicos, mas agiam contra o amor cristão.

Com suas semelhanças e contrastes, são particularmente complementares, revelando para nós, nestes tempos contemporâneos, a integralidade da doutrina católica. Não ser consciente dessa complementaridade entre os dois papas torna muito mais difícil compreender a riqueza dos dons do Espírito que se manifesta na diversidade de temperamentos que caracterizam a humanidade (cf. 1Co 12: 4-31). Ao mesmo tempo, reduz a integralidade da mensagem da Igreja, particularmente nestes tempos pós-modernos, a uma disputa entre interpretações particulares. Em uma mistura de informação e desinformação, os próprios cristãos tendem a considerar que o papa pensa “como eles” ou “contra eles” e estão mais interessados em confirmar esse preconceito do que em se perguntar como o sucessor de Pedro pode ajudá-los em seu caminho de conversão.

O Papa que veio da terra da missão

Jorge Mario Bergoglio é membro da Companhia de Jesus, sempre missionária, e nascido em uma terra de missão. Na América Latina, a Igreja nunca deixou de ser uma experiência missionária. Padres sempre foram relativamente poucos. Os governos sempre olharam para a Igreja com desconfiança ou más intenções.[4] Pessoas simples não tiveram uma boa educação católica, mas sempre tiveram o apoio da Igreja Católica e foram fiéis a ela, embora em um período recente as igrejas cristãs neopentecostais tenham crescido muito.

A origem em solo missionário implica numa série de características humanas e espirituais que são evidentes na mensagem do Papa Francisco. Para quem conhece essa realidade, é evidente que – com esse papado – o Espírito queria que a Igreja universal aprendesse novamente as duras lições de viver como um estrangeiro, que ama o mundo imensamente, mesmo quando é perseguido pelo mundo, como lembrado na Carta a Diogneto.

A primeira lição, amplamente proclamada por Francisco desde o início, é que Deus está “lá fora”, naqueles que encontramos, nas periferias da existência, que Ele se entrega a nós quando nos entregamos aos outros. Dar-se ao outro, ir para as periferias da existência não é filantropia altruísta. É um ato de amor ao próximo, mas também é – ainda antes – uma jornada em direção a Cristo. Assim Francisco, logo no início do texto mais programático de seu pontificado, Evangelii Gaudium (EG, 2013), ao propor uma “Igreja em saída”, declara: “A alegria do Evangelho que preenche a vida da comunidade de discípulos é uma alegria missionária … A intimidade da Igreja com Jesus é uma intimidade itinerante, e a comunhão ‘constitui-se essencialmente em comunhão missionária’(Christifideles laici,32)” (EG 21-23).

O missionário, um estranho na terra em que se encontra, é sempre pobre e fraco, desprovido das honras e consideração que o cristianismo recebe onde é a fé predominante. Ao mesmo tempo, seu coração naturalmente se dirige aos mais fracos e aos mais excluídos – e é reconhecido por eles. Não importa para quais periferias ele foi enviado: outro país, onde tudo parece estranho e os valores cristãos estão sempre em dúvida; os bairros pobres da cidade, onde falta pão e dignidade; a universidade ateia, onde se sofre do vazio da razão sem sentido. Em todos esses lugares o missionário, em sua própria pobreza e fragilidade, encontra Cristo. Em todos esses lugares ele descobre que os pobres e o sofredores são os primeiros a aderir à Boa Nova, mesmo que a primeira vista até pareçam hostis.

Por isso, o missionário percebe, com particular sensibilidade, a importância da opção pelos pobres. Antes de um discurso teológico aprendido nos bancos escolares, é uma experiência humana diária. É por isso que Francisco quer uma Igreja “pobre para os pobres” (EG 198).

Todo ser humano se reconhece como pobre em um certo sentido: material, afetivo, moral, espiritual. Todos tentam esconder sua pobreza e fragilidade dos outros. Mas só os mais arrogantes escondem a própria pobreza de si mesmos. E só a misericórdia pode aceitar plenamente a miséria. É por isso que Francisco, com sua devoção pessoal à misericórdia e seu amor pelos pobres, fascina o mundo.[5]

O missionário também se caracteriza pela sua atenção para com o outro e a realidade. Em uma terra estrangeira e até hostil, ele deve estar atento, procurando “pontes” que lhe permitam comunicar a experiência cristã em um contexto diferente. A primeira preocupação nunca pode ser corrigir. Em vez disso, precisa entender e acolher para anunciar. A alma missionária está acostumada a não parar em frente do diferente, tentar entendê-lo e valorizá-lo, descobrir nele as maravilhas que Deus espalha no mundo e as pontes que permitem o diálogo e o encontro evangelizador. O missionário está acostumado a encontrar no outro os maravilhosos sinais da ação de Deus, que até precedem o anúncio cristão; descobrir a necessidade de um compromisso concreto para superar problemas materiais.

Bergoglio encontra o problema socioambiental

Nesse espírito, o Papa Francisco reconhece que começou a ter contato mais próximo com a questão ambiental durante a Quinta Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano em Aparecida (2007). Em suas próprias palavras, ele pensou na época: “Mas esses brasileiros, como aborrecem com essa Amazônia! O que a Amazônia tem a ver com evangelização”.[6] No entanto, a estranheza inicial tornou-se atenção, fascínio e comprometimento. [7]

A questão ambiental há muito recebeu a atenção da Igreja. Paulo VI, São João Paulo II e Bento XVI escreveram sobre o tema. No entanto, em sua abordagem, Francisco fez da questão socioambiental um traço de seu pontificado, com a Encíclica Laudato si’ (LS, 2015). [8]

Um Sínodo para a Amazônia

Diante do Laudato Si’ e dos desafios enfrentados na região, o Papa Francisco, em 2017, convocou o Sínodo para a Amazônia, realizado em 2019. Entre a convocação e a realização do Sínodo, uma série de conflitos envolvendo o presidente brasileiro Jair Bolsonaro e o aumento da devastação do meio ambiente e das queimadas na região durante seu mandato (que começou em 2019), fizeram com que o evento ganhasse repercussão política mundial.[9]

Antes, outras dez Assembleias Sinodais de Bispos já haviam ocorrido dedicadas a regiões específicas do mundo, como Europa, África ou Oriente Médio. No entanto, dois aspectos foram particularmente significativos nesta edição focada na Amazônia: (1) a importância que o Papa Francisco sempre deu à sinodalidade e à colegialidade na Igreja; [10] e (2) uma ampla consulta com as pessoas da região, que seria a base para a redação do Instrumentum Laboris. [11]

Este Instrumetum tornou-se o centro das divergências em torno do Sínodo para a Amazônia. De acordo com seus críticos, muitas de suas formulações estão teologicamente equivocadas, sugerindo um certo panteísmo ecológico e esvaziando a centralidade de Cristo. Além disso, gerou muita indignação defendendo a ordenação de homens casados como solução para a falta de padres na região. Seus defensores, por outro lado, argumentaram que se tratava de ouvir as demandas feitas durante o processo consultivo, manter a abertura ao diálogo intercultural e responder aos problemas socioambientais na região.[12],[13]

Uma curiosidade deste debate sobre o Instrumentum laboris é que seus defensores sentiram que a crítica veio de uma visão eurocêntrica que não queria reconhecer a especificidade da reflexão latino-americana. Muitos de seus críticos, por outro lado, consideravam seu problema como sendo uma contaminação ideológica por parte dos teólogos europeus que participaram da elaboração do documento e, mesmo vivendo na América Latina, “exportaram” as questões da Igreja europeia para o contexto amazônico.

O Documento Final do Sínodo dos Bispos, “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral“, procurou afastar-se das querelas teológicas e manter as linhas socioambientais já presentes no Instrumentum laboris.[14] No entanto, manteve suas propostas relativas à ordenação de homens casados (nº 111).

Amazônia: o valor e a fragilidade da floresta e seu povo

Duas características marcam a região amazônica e determinam a vida humana em seu território. Por um lado, sua riqueza natural e cultural, por outro, sua fragilidade, igualmente natural e social.

As condições climáticas e a história geológica da região criaram ecossistemas com alta biomassa e grande diversidade biológica, com recursos tropicais de grande valor (peixes, frutos, ingredientes ativos para farmacologia, paisagens para ecoturismo), minerais e algumas (nem todas) áreas adequadas para agricultura e pecuária. No entanto, a própria floresta é o principal fator de controle do clima, protegendo o solo e o fertilizando. Sua destruição resultaria na perda da maioria desses recursos, além de impactar o equilíbrio climático em escala global, dada a extensão da região.[15]

Do ponto de vista demográfico, a região amazônica repete essa dinâmica de riqueza e fragilidade. O estado do Amazonas, no Brasil, um dos locais mais afetados no mundo pelo Covid-19, é um exemplo característico das contradições da região. Em um território cerca de 3 vezes maior que a França, há uma população de 4,2 milhões de habitantes (apenas 2,7 habitantes/km²). No entanto, a capital Manaus, é uma cidade com 2,2 milhões de habitantes e uma economia baseada na indústria, um centro de produtos petroquímicos e eletroeletrônicos. O índice de desenvolvimento humano (IDH = 0,73) é considerado alto, mas cerca de 47% da população vive abaixo da linha de pobreza.

A região amazônica é um mosaico onde culturas indígenas (hoje populações minoritárias) se fundem com culturas ocidentais e africanas, trazidas por escravos.  A religião predominante é um cristianismo popular, sincrético e muitas vezes amadurecido longe do acompanhamento pastoral de qualquer Igreja cristã. O catolicismo era visto como a principal religião, mas está rapidamente perdendo terreno para novas igrejas neopentecostais.

“Querida Amazônia”

A partir desse contexto desafiador, tanto para os problemas concretos existentes quanto para as polarizações teológicas, Francisco cria um texto reconhecido como referência obrigatória por leitores bem-intencionados, seja qual for sua tendência.[16]

“Querida Amazônia” é uma exortação pós-sinodal. Deve, portanto, dialogar com o Documento Final produzido pelos bispos. Nesse sentido, o Papa tomará uma decisão metodológica explícita: ele não menciona este Documento, mas convida todos a lê-lo (QA 2-3). Ao mesmo tempo, com seu texto, dialoga com as preocupações e propostas do Sínodo.

É importante notar que a Exortação não se liga a aspectos normativos ou organizacionais. As respostas do Papa não eliminam esses aspectos, mas são muito mais espirituais e místicas por natureza. À questão da falta de padres para a região, por exemplo, ela não responde com uma discussão normativa sobre o celibato, mas escreve: “Não se trata apenas de favorecer uma maior presença de ministros ordenados que possam celebrar a eucaristia. Este seria um objetivo muito limitado se não tentássemos criar uma nova vida nas comunidades. Precisamos promover o encontro com a Palavra e o amadurecimento na santidade através de vários serviços leigos” (QA 93).

A abordagem dos problemas segue o método de diálogo estabelecido na Laudato si’.  Na encíclica, Francisco afirma: “Se levarmos em conta a complexidade da crise ecológica e suas múltiplas causas, devemos reconhecer que as soluções não podem vir de uma única forma de interpretar e transformar a realidade. Também é necessário recorrer às diferentes riquezas culturais dos povos, da arte e da poesia, da vida interior e da espiritualidade […] nenhum ramo da ciência e nenhuma forma de sabedoria pode ser negligenciada, nem mesmo a sabedoria religiosa com sua própria língua” (LS 63). Além disso, todo o Capítulo Cinco desta encíclica, “Algumas diretrizes e ações”, se dedica a propor diálogos entre diferentes organismos sociais e políticos como forma de resolver problemas socioambientais.[17]

Sonhos e contemplação

O texto de Francisco está estruturado em torno de quatro “sonhos”: social, cultural, ecológico e eclesial. O “sonho” é, na linguagem coloquial, o espaço do desejo, da mais profunda e mais livre aspiração, onde o coração do homem é revelado. Pode ser um sonho utópico, referindo-se a um projeto futuro que nunca se realiza, mas também pode ser a representação estética de um ideal que ilumina o presente.

Os “sonhos” de Francisco para a Amazônia são claramente desse segundo tipo. Eles revelam, de forma afetiva e bela, um ideal que deve guiar o momento presente. Mais do que um projeto para o futuro, são uma experiência espiritual: a contemplação do que o amor de Deus deseja para os seres humanos e para toda a criação.[18]

O primeiro sonho é social. A sequência reflete a inquietação do coração. Para o pai aflige o sofrimento de seus filhos; para o missionário, as necessidades das pessoas para quem ele foi enviado. A conversão, é bom lembrar, é um fruto da graça no diálogo com a liberdade; já a solicitude em face do sofrimento material é um dever de caridade.

O Papa quer que os povos amazônicos “consolidem uma boa vida” (QA 8).  A expressão “boa vida” faz uma referência explícita à espiritualidade indígena latino-americana. No entanto, também harmoniza com uma visão clássica de harmonia entre os seres humanos e a realidade.[19],[20]

Usando essa expressão, Francisco mostra que o bem-estar de um povo não pode ser determinado por regras externas, deve ser entendido em diálogo com suas tradições e seu modo de vida. Ao mesmo tempo, refere-se a uma intuição universal de que uma vida digna depende de condições materiais, mas também de uma posição humana adequada diante do mundo. Para aqueles de boa vontade, católicos ou não, a expressão é uma ponte de diálogo.

Diante dos problemas sociais da Amazônia, o Papa nos convida a ficar indignados e pedir perdão, especialmente pelas instituições corruptas, que muitas vezes contavam com a omissão e até com o apoio dos católicos (QA 15-19: 23-25). Alternativamente, aponta para o sentido comunitário dos povos amazônicos (QA 20-22) e o crescimento de um diálogo sociopolítico, que “não deve apenas dar prioridade à escolha preferencial para a defesa dos pobres, dos marginalizados e dos excluídos, mas considerá-los como protagonistas” (QA 27).

A necessidade de diálogo traz à reflexão o “sonho cultural” de Francisco (QA 28-40). Não seria possível compreender o pensamento do Papa sem reconhecer o papel fundamental que ele atribui à cultura e, em particular, à cultura popular. De fato, o diálogo intercultural, no qual o encontro de culturas ocorre com respeito à tradição e especificidade de cada povo, mais do que um tema, é o próprio espírito que guia toda a Exortação.[21]

A valorização dos povos e culturas que vivem na região leva diretamente à conservação dos ecossistemas, ao “sonho ecológico” (QA 41-60). “O Senhor, que primeiro cuida de nós, nos ensina a cuidar de nossos irmãos e irmãs e do ambiente que Ele nos dá todos os dias” (QA 41). Francisco entende a natureza, particularmente na Amazônia, como “um lugar teológico, um espaço onde o próprio Deus se manifesta e chama seus filhos” (QA 57). Esta não é uma afirmação panteísta, como alguns imaginaram. É uma consequência do encontro com Cristo: “Para nós cristãos, é o próprio Jesus que nos implora através delas [as criaturas], porque o Ressuscitado misteriosamente as envolve e as direciona para um destino de plenitude. As mesmas flores e os pássaros que Ele contemplava admirado com seus olhos humanos, agora estão cheias de sua presença luminosa (Laudato si’,100)” (QA 57).

O anúncio: necessário e inculturado

Em um documento com 111 pontos numerados, 49 são dedicados ao “sonho eclesial” (QA 61-110). Muitos esperavam uma adesão radical neste capítulo à linha tomada pelo Instrumentum Laboris e ficaram decepcionados com o que consideravam uma concessão aos conservadores. A posição e as declarações de Francisco não apoiam essa hipótese. O Papa sempre disse o que acha necessário dizer, sem temores políticos. Portanto, o mais justo é considerar que seu “sonho eclesial” representa a mensagem que ele quer transmitir à Igreja na Amazônia (e, quando aplicável, ao mundo). Pode ser resumido em quatro pontos:[22]

– A presença e a missão da Igreja são inseparáveis da promoção humana em geral e, quando necessário, da proteção do meio ambiente – razão para a apresentação dos três sonhos anteriores.

– No entanto, há uma proclamação indispensável, que é a razão do ser da Igreja: “A opção preferencial para os mais pobres e mais esquecidos, ao mesmo tempo em que nos empurra para libertá-los da miséria material e defender seus direitos, implica que proponhamos a eles a amizade com o Senhor que os promove e lhes dá dignidade. Seria triste se eles recebessem de nós um código de doutrina ou um imperativo moral, mas não a grande proclamação salvadora, aquele grito missionário que aponta para o coração e dá sentido a tudo o resto […] Eles têm direito à proclamação do Evangelho” (QA 63-64).

– Essa proclamação deve ser inculturada, ou seja, capaz de recuperar e integrar todos os valores que encontra nas tradições e culturas. Trata-se de reconhecer a sabedoria dos povos, aprender com eles, acolher sua espiritualidade (cf. QA 70-73). A inculturação deve atingir a santidade (QA 77-80), liturgia (QA 81-84) e ministérios (QA 85-90) com rostos amazônicos, que não são considerados como invenções exóticas, mas como explicitação dos valores universais da Igreja em um contexto específico.

– Por fim, comunidades cheias de vida, com forte espiritualidade, ampla presença de leigos, contribuição reconhecida das mulheres, capacidade de superar conflitos e ir ao encontro de outras religiões.

Entendendo a história: do Pacto das Catacumbas à “Querida Amazônia”

Em um distante 1965, quarenta bispos que participaram do Concílio Vaticano II – a maioria composta por latino-americanos – reuniram-se na Catacumba Domitila, em Roma, e assinaram um documento propondo viver a pobreza evangélica, praticar a colegialidade, dar mais espaço aos leigos em suas dioceses e lutar por justiça social. O documento tornou-se conhecido como Pacto das Catacumbas e muitos veem, com razão, neste texto um presságio do que são hoje as propostas eclesiais do Papa Francisco.[23]

Mas como podemos explicar esse aparente hiato de 50 anos entre esse Pacto e o magistério do atual Papa? Muitos, nostálgicos para aqueles tempos, leem essa lacuna em perspectiva secularizada, explicando-a como resultado das oscilações características da dialética da história. Entre alguns há também uma certa alegria vingativa: “finalmente ganhamos”.

Isso seria só um “cochilo” do Espírito? Deus teria abandonado os justos de sua Igreja por tanto tempo? Ou teria sido um tempo de purificação, necessário para uma compreensão justa dessa perspectiva eclesial?

Para entender – com o discernimento cristão – o que aconteceu, devemos voltar aos anos sessenta, recuperar um pouco da mentalidade desse período, na Igreja e no mundo. Naquela época, havia uma crença generalizada de que a utopia estava próxima. Muitos movimentos sociais, muitas vezes em desacordo uns com os outros, acreditavam em uma grande revolução nos costumes e nas estruturas sociais.

Neste contexto não houve falta de santos engajados com a justiça social e com os pobres, seguindo uma tradição cristã presente em todas as épocas e continentes. No entanto, houve também interpretações secularizadas da mensagem evangélica, que atualizaram os movimentos milenaristas – também estes espalhados pelo tempo e espaço. Era a ideia de que seria a coerência moral dos cristãos (agora lida em termos sociopolíticos e emancipatórios) que legitimaria a presença da Igreja no mundo racionalizado e desencantado da Modernidade Avançada.

Essa tendência milenarista, nunca assumida, mas sempre próxima, foi o grande problema da Igreja no quadro teórico da teologia da libertação. Infelizmente, no período imediatamente seguinte ao Concílio, problemas semelhantes estavam generalizados na comunidade católica em todo o mundo. A renovação muitas vezes parecia não ser uma recuperação da novidade sempre presente do encontro com Cristo, mas uma ruptura que negava a relevância desse encontro, reduzida a uma doutrina ou ideologia, respeitável e inspirada, mas relegada ao passado.[24]

É compreensível, portanto, que a jornada da Igreja passasse por um período de realinhamento no qual os princípios fundamentais fossem bem evidenciados. Como tudo na Igreja, era um caminho que passava pela graça de Deus, mas também através dos pecados humanos. No entanto, foi um passo necessário. Ciente desse fato, Bento XVI proclamou, no final de seu pontificado: “devemos aprender a lição mais simples e fundamental do Concílio, ou seja, que o cristianismo em sua essência consiste na fé em Deus, que é o Amor Trinitário, e no encontro, pessoal e comunitário, com Cristo dirigindo e guiando a vida: todo o resto é consequência”.[25]

A tradição que se abre para o futuro

Uma estrutura corporal sólida é uma condição para que um atleta ultrapasse seus limites. Ele não seria capaz de avançar sem esta estrutura, mas ela seria inútil se ele não tentasse ir mais longe. Este é o grande vínculo que articula o pontificado de Francisco com o de seus antecessores. A segurança teológica e o progresso missionário não se opõem, são a raiz e o fruto da mesma árvore.

Em seu discurso final na Assembleia do Sínodo dos Bispos para a Amazônia, o Papa explica como entender essa ligação com uma citação de Gustav Mahler: “Tradição é a preservação do futuro e não a guarda das cinzas”.[26] E seu magistério pode ser visto não só como uma grande missão ad gentes, mas como uma missão à cultura e à mentalidade da “pós-modernidade”.

Publicação original : RIBEIRO NETO, Francisco Borba. Le pape François et la nouvelle évangélisation. Communio, Revue Catholique Internationale. Théologie du peuple et pastorale populaire, novembro-dezembro 2021, n°278: 119-130.

Notas

[1] Para uma apresentação Sistemática do documento, Ver SPADARO, A.  Commento alla Esortazione Apostolica di Papa Francesco “Querida Amazonia”. La civiltà cattolica, 171 (4073): 462-476, 2020.

[2] Primeira saudação e primeira bênção aos fiéis, 16 de outubro de 1978.

[3] Bênção Apostólica Urbi et Orbi, 13 de março de 2013.

[4] Na América Latina colonial, os governos supostamente protegiam a Igreja Católica, em um sistema conhecido como padroado régio. Na verdade, era mais um sistema de cooptação e submissão da Igreja ao poder temporal. Exemplos óbvios são a destruição, com a aprovação dos governos espanhol e português, das reduções jesuíticas, a maior experiência de inculturação do cristianismo no continente, destruídas entre 1753-1756 e a expulsão dos jesuítas do Brasil (1759) e da América Espanhola (1767).

[5] Para uma visão geral da experiência pessoal do Papa Francisco com a misericórdia e como essa experiência se torna ensino, ver Mensagem aos Missionários da Misericórdia (10 de abril de 2018).

[6] Encontro com um grupo de especialistas que trabalham com a Conferência dos Bispos da França sobre o tema Laudato Si’, 3 de setembro de 2020.

[7] Na “Querida Amazônia”, Francisco assim enuncia essa inevitável ligação entre fascínio e compromisso: “A amada Amazônia se mostra diante do mundo com todo o seu esplendor, seu drama, seu mistério […] endereço esta Exortação para o mundo inteiro. Eu faço isso, por um lado, para ajudar a despertar afeto e preocupação para esta terra que também é ‘nossa’ e convidá-los a admirá-la e reconhecê-la como um mistério sagrado; por outro lado, porque a atenção da Igreja para os problemas deste lugar nos obriga a assumir alguns temas” (QA 1-5).

[8] Ver o resumo histórico apresentado na Laudato Si (LS 3-5).

[9] A história do Sínodo para a Amazônia é contada em SELL, C.E. “Nada será como antes”. A controvérsia eclesiástica sobre o Sínodo dos Bispos da Amazônia (2017-2019). Revista Eclesiástica Brasileira, 80 (316): 282-306, 2020

[10] Ver FRANCISCO. Constituição Apostólica Episcopalis Communio sobre o Sínodo dos Bispos. Roma 15 de setembro de 2018

[11] SÍNODO DOS BISPOS. Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral. Instrumentum Laboris. Vaticano 17 de junho de 2019.

[12] Entre as vozes críticas, destaca-se:

MULLER, G. Dokumentiert: “Zum Offenbarungsverständnis des Arbeitspapiers” der Amazonas-Synode. CNA Deustsch, 16 de julho de 2019. Um teólogo europeu critica aspectos conceituais do documento.

AZCONA, J.L. A Amazônia brasileira não é mais católica, prelado crítica o Instrumentum Laboris do Sínodo. ACI Digital, 20 de agosto de 2019. Um bispo que trabalhou na Amazônia critica os aspectos pastorais e a visão social do documento.

[13] Ver a defesa do documento em SELL, E.C. Op. cit. O artigo assume as principais defesas do Instrumentum e refere-se a outros textos semelhantes.

[14] SÍNODO DOS BISPOS. Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral. Documento Final. Vaticano 26 de outubro de 2019.

[15] RIBEIRO NETO, F.B. Amazônia: a floresta como valor. Ciberteologia, 61: 9-23 (2019).

[16] Ver comentários a “Querida Amazônia” em:

SUESS, P. O sínodo para a Amazônia: entre conveniência pastoral e audácia socioecológica. Caminhos de diálogo, 8 (12): 35-45. Comentário de um teólogo diretamente envolvido na elaboração do Instrumentum laboris.

MULLER, G. “Querida Amazonia” Is a Document of Reconciliation. National Catholic Register, 12 de fevereiro de 2020. Comentários de outro teólogo, já mencionado por sua forte crítica do mesmo Instrumentum.

[17] Uma compreensão correta do pensamento de Francisco implica reconhecer sua ênfase no diálogo (“Quando os líderes dos diferentes setores me pedem conselhos, minha resposta é sempre a mesma: diálogo, diálogo, diálogo”, disse ele na  Reunião com a classe dirigente do Brasil, 7 de julho de 2013), mas sem perder sua valorização do protagonismo dos movimentos populares e sua resistência aos poderes dominantes (cf. Mensagem aos participantes do 3º Encontro Mundial de Movimentos Populares, 5 de novembro de 2016).

[18] A beleza remete à poesia e à literatura, coerentemente Francisco frequentemente menciona poetas que viveram ou são da Amazônia.

[19] Veja WOLFART, G. O Bem Viver é uma teologia indígena. IHU Online, outubro de 2012.

[20] Assim podemos entender, por exemplo, o diálogo entre o Cardeal Angelo SCOLA e Aldo CAZZULLO, La vita buona. Un dialogo sulla Chiesa, la fede, l’amore, la vita e il suo senso (Milão: Mondadori, 2014).

[21] Para uma apresentação mais sistemática do tema da cultura em relação com o diálogo sociopolítico, ver Fratelli tutti (FT 133-155, 215-224).

[22] Sobre uma das questões mais controversas do Instrumentum Laboris, a permissão para ordenar homens casados, Francisco já tinha falado que aprecia o celibato (cf. Conferência de imprensa durante o voo de volta do Panamá, 27 de janeiro de 2019) e nada sugere que ele tinha uma posição diferente para defender.

[23] Ver BOFF, L. El pacto de las catacumbas vivido por el Papa Francis. Servicios Koinonia, 8 de julho de 2014. Durante o Sínodo para a Amazônia, outro grupo, formado por quarenta bispos e outros participantes do evento, fizeram uma reedição atualizada deste Pacto (cf. MODINO, M. Pacto das Catacumbas pela Casa Comum. Por uma Igreja com rosto amazônico, pobre e servidora, profética and Samaritana. IHU Online, 21 Outubro 2019).

[24] A este respeito, para uma crítica, inserida em uma perspectiva construtiva e proveniente da mesma teologia da libertação, ver BOFF, C. Teologia da Libertação e volta ao fundamento. Revista Eclesiástica Brasileira, 67(268): 1001-1022, 2007

[25] Audiência Geral, 10 de outubro de 2012.

[26] Discurso do Santo Padre Francisco no final da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para o Panamazzonica sobre o tema “Novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”, 26 de outubro de 2019.

Caminhos para um Brasil melhor

Francisco Borba Ribeiro Neto

 

Um fenômeno paradoxal acontece com as nações, quando começam a melhorar: o povo, frequentemente, tem a impressão de que as coisas estão piorando! É fácil de entender o que acontece. Em situações muito corruptas e iníquas, as pessoas nem se dão conta das injustiças que estão ocorrendo. Saber que as coisas estão erradas já é um sinal de que elas estão melhorando. Nunca melhoram com a velocidade que gostaríamos, é verdade. Mas, estão melhorando – e isso já é muito importante. Mais assustadora é a crença acomodada que tudo vai bem, sinal de que o esforço pela construção do bem comum está adormecido em nós ou foi entregue a algum demagogo que diz resolver tudo sozinho – quando a verdade é que os problemas nunca são resolvidos sem o esforço e a luta de muitos.

 

Atalhos perigosos

O bem comum nunca é o resultado de um caminho curto. As sociedades humanas se esforçam para consegui-lo desde sempre – muitas vezes avançando, em outras retrocedendo. É natural que desejemos trilhar caminhos mais curtos e rápidos, mas os atalhos frequentemente são enganosos.

Ao longo da história, a Igreja tendeu a olhar com desconfiança a revoluções e golpes justamente por isso. Independentemente da índole e das convicções ideológicas das lideranças – que podiam ser mais honestas ou mais corruptas, mais idealistas ou mais interessadas no próprio poder – as rupturas históricas frequentemente geraram, no curto e médio prazo, violência e opressão. Os vencedores se autoproclamam justos e condenam os vencidos, vitimando multidões de inocentes e retardando, ao invés de acelerar, a construção coletiva do bem comum.

Pode haver rupturas necessárias ou desejáveis? Sim, mas as condições para que sejam úteis são muito exigentes. Têm que ser o resultado de processos construídos ao longo dos anos, que garantam ganhos reais à população e não apenas promessas demagógicas ou falas prepotentes. Não podem ser baseadas em lideranças discutíveis, que denunciam a corrupção quando praticada pelos adversários e a escondem quando praticada por aliados e familiares… E aqui a história recente do Brasil não perdoa a nenhum dos lados – em ambos temos exemplos de supostos defensores da integridade pública que obstruem o combate à corrupção quando eles e seus companheiros são denunciados. Por fim, as rupturas não podem se basear em discursos de ódio e violência, pois esse tipo de postura gera espirais de conflito intermináveis.

Por todos esses aspectos, parece difícil esperar um Brasil melhor a partir de rupturas institucionais…

 

A ruptura na continuidade propiciada pela democracia

A genialidade da democracia é permitir que rupturas aconteçam mantendo-se a continuidade da ordem. Cada vez que a oposição ganha as eleições, acontece uma ruptura, sem que a ordem institucional e a harmonia da vida social sejam quebradas. Nessas condições, a ruptura permite um verdadeiro aperfeiçoamento, e não o caos ou a supremacia do arbítrio, como costuma acontecer em golpes e revoluções.

Nesse caminho, a chave do sucesso é o aperfeiçoamento das instituições. A alternância de pessoas e partidos no poder é salutar, mas não significa que os vencedores são melhores que os perdedores. Contudo, cada grupo tende a mostrar e tentar corrigir os erros do adversário. Com isso, pouco a pouco as instituições vão se aprimorando.

Um dos maiores obstáculos nesse caminho, é justamente a permanência de políticos fisiológicos e corporativistas que não seguem nenhum programa político, apenas se deixam cooptar pelos vitoriosos, na condição de não perderem seus privilégios. Boa parte dos políticos brasileiros estão nesse grupo. É espantoso como líderes que apoiavam a esquerda se tornam a base política da direita quando mudam os ventos políticos – e vice-versa! O triste é que nossos governantes, estejam de um lado ou do outro no espectro ideológico, acabam se apoiando nesses políticos fisiológicos e repetindo os erros do passado.

A única forma de superar essa situação é com o voto, com uma crescente consciência política e participação do povo. O eleitor tem que ter tanto a informação necessária para escolher seu candidato, quanto as condições sociais e políticas para exercer seu direito de escolha. O mecanismo da urna, eletrônica, manual ou impressa, pode ajudar, mas o diferencial real está na participação cotidiana, na construção de espaços de mudança social e política, onde todos podem exercer sua dignidade. Um trabalho que só é dificultado pelo ressentimento e pela violência.

 

Aperfeiçoar as instituições

Aos olhos da doutrina social da Igreja, em todos os tempos, o compromisso ético das personalidades públicas e de todos nós é uma das bases para uma política melhor. Contudo, a sabedoria cristã nunca deixou de denunciar as limitações e os pecados de todos os seres humanos. Por isso, sabe que pessoas justas não se propõem a construir o bem comum só com base em seu poder individual. O bom político está sempre procurando construir instituições mais justas, que representam uma limitação ao despotismo de qualquer um – inclusive das tendencias autoritárias que ele mesmo pode ter.

A “fulanização”, supondo que o bem comum será construído com a destituição desse ou daquele “Fulano”, e não com o aperfeiçoamento das instituições, não constrói um país melhor. As polêmicas em torno dos atuais ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) são um bom exemplo dos limites e dos retrocessos que podem acontecer com essa “fulanização”.

Todos temos vistos os muitos problemas que cercam a atuação do STF no Brasil. Em certos momentos, os ministros parecem conviventes com os poderosos, em outros momentos parecem perseguir os políticos com os quais não simpatizam. São acusados de ativismo judiciário (interpretarem a Constituição com critérios ideológicos e particulares) ou de garantismo (invocarem direitos reconhecidos constitucionalmente mas que acabam impedindo a condenação dos culpados). Os mecanismos de decisão são frequentemente autocráticos, de modo que a decisão de um ministro pode ser totalmente oposta à de seu colega para uma situação equivalente. Esse conjunto de problemas têm levado a uma desconfiança crescente da população e uma insegurança jurídica trágica para o País.

Existem muitas propostas circulando nos meios jurídicos e políticos para superar ou minimizar esses problemas. Sem entrar no mérito de quais propostas seriam melhores, quais seriam piores, podemos listar algumas. Por exemplo, democratizar a escolha dos ministros, que hoje depende apenas do presidente e do Senado, incluindo a participação de associações de magistrados, Ordem dos Advogados do Brasil e outras instâncias. Hoje, os ministros são praticamente vitalícios, poderiam ter mandatos, mesmo que longos, como os dos senadores. Reduzir as situações em que os políticos têm fórum privilegiado, de modo que o STF não seja a única instância de julgamento dos eleitos. Obrigar os magistrados a tomarem decisões compartilhadas em situações que envolvem a política e o bem comum, reduzindo o risco de decisões autocráticas…

O importante aqui não é dizer o que fazer em relação ao STF, mas sim mostrar que, quando pensamos em rupturas ou decisões personalistas, apoiando ou condenando essa ou aquela personalidade pública, nos afastamos de um caminho de real melhoria da vida institucional e da política brasileira.

 

Veja também: A sabedoria cristã diante da política em tempos de raiva e ressentimento

A sabedoria cristã diante da política em tempos de raiva e ressentimento

Francisco Borba Ribeiro Neto

Vivemos um momento de tensão, confronto, ressentimento e raiva na sociedade brasileira. É um tempo que exige sabedoria e um discernimento justo, que supere polarizações e instrumentalizações de qualquer tipo.

A política brasileira é marcada por anos de escândalos de corrupção, sinais de irresponsabilidade, desinteresse pelo bem comum, desrespeito à vida e à dignidade da pessoa. Esse contexto alimenta e é alimentado por partidarismos extremados, numa espécie de grande bola de neve.

Os valores em que acreditamos, nossas famílias, a felicidade de nossos filhos, nosso direito de dizer o que pensamos, nossa liberdade individual e nossa própria vida… Tudo parece estar em risco. Não só por causa do coronavírus, mas também pelas maquinações dos poderosos, sejam eles grandes capitalistas ou políticos populistas, globalistas ou nacionalistas, grandes jornais ou disseminadores de fake news. Ironicamente, aqueles que um lado considera os defensores do povo, o outro acusa de manipulações e desrespeitos à dignidade da pessoa e ao bem comum.

A esquerda acusa a direita, a direita acusa a esquerda, Com certeza, os dois lados têm acertos e erros, pessoas bem e mal-intencionadas – pois assim somos nós, seres humanos, sempre falíveis e contraditórios, por mais que procuremos o bem. O salmista, em seus versos, não cansa de advertir os que confiam na força dos seres humanos de que sua esperança é vã, que as forças humanas não podem salvar. Numa das mais grandiosas poesias católicas do século XX, os Coros de “A rocha”, T.S. Eliot denuncia a ilusão de querermos construir sistemas tão perfeitos que tornassem desnecessário sermos bons. É sábio não confiar nas forças e nos sistemas humanos, reconhecer sempre a frágil condição na qual estamos, nós que – de uma forma ou de outra – sempre seremos sujeitos à fragilidade de nossa coerência moral.

Contudo, a galopante repetição de escândalos de corrupção, impunidade, corporativismo e nepotismo envolvendo nossos legisladores, magistrados e governantes nos lança um outro desafio: será possível ter alguma esperança na política brasileira? Essa desilusão e esse derrotismo, obviamente, não são justos, mesmo que compreensíveis em muitos momentos. A questão adequada é conhecer a justa esperança que podemos e devemos ter na vida política nacional.

A falta de fé e a pretensão neopelagiana

Para o cristianismo, um momento como esse, seja ou não mais difícil que tantos outros da história, carrega dois perigos. O primeiro, mais evidente, é a falta de fé e de esperança, sobre a qual já refletimos em outro artigo. O segundo, mais sutil, mas não menos perigoso, é – com o desespero e a desilusão – confiarmos apenas na força e na coerência (nossa ou de algum líder poderosos) para nos salvar – uma velha heresia à qual o Papa Francisco se refere ao falar do neopelagianismo, na Evangelii Gaudium (EG 93ss).

Deus quer nossa colaboração para salvar tanto o gênero humano quanto cada um de nós pessoalmente. Contudo, quer que trabalhemos sempre à luz da Sua graça. Como dizia Santo Inácio de Loyola, lembrado por Bento XVI: “Age como se tudo dependesse de ti, mas consciente de que na realidade tudo depende de Deus”. Mesmo na hora mais escura, mais cheia de incertezas, Ele pode nos salvar. Mesmo quando temos o poder e o mundo parece seguir nossos valores e desígnios, acabamos por servir ao Mal, se não é Ele quem edifica (cf.  Sl 127).

A assiduidade a uma vida espiritual humilde, que busca sempre a comunhão com Cristo e sua Igreja, é sempre a melhor resposta ao neopelagianismo. Mas o lobo muitas vezes se veste de cordeiro e nós também nos enganamos mesmo que com boas intenções. No Evangelho, Jesus nos exorta a sermos “”prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas” (Mt 10, 16), mas – quando somos consumidos por essa pretensão de salvar, com nossas próprias forças, a nós mesmos, a Igreja e o mundo – agimos como serpentes, tendo a inteligência de pombas…

Três sinais a evitar

O sinal mais inequívoco da tentação neopelagiana é acreditar que ter o poder é a condição para salvarmos o mundo. Se as coisas vão mal, é porque os nossos adversários têm o poder, se nós ou nossos amigos estão no poder, tudo automaticamente nos parece bom. Como diz o Papa Francisco, na Laudato si’: “Tende-se a crer que toda a aquisição de poder seja simplesmente progresso, aumento de segurança, de utilidade, de bem-estar, de força vital, de plenitude de valores, como se a realidade, o bem e a verdade desabrochassem espontaneamente do próprio poder […] A verdade é que o homem moderno não foi educado para o reto uso do poder […] A liberdade [do ser humano] adoece, quando se entrega às forças cegas do inconsciente, das necessidades imediatas, do egoísmo, da violência brutal” (LS 105).

Um segundo sinal é a raiva e a violência. O poder, por si só, faz muitas coisas, mas não consegue nos conduzir ao caminho do bem e da verdadeira realização pessoal. Assim, ficamos cada vez mais frustrados e tendemos a culpar cada vez mais os outros pelos nossos infortúnios. Gente que não tem nada a ver com nossa vida passa a ser culpada pelos nosso problemas e frustrações. Em tudo vemos ideologias nefastas (que podem até estar presentes, mas não podem ser a única coisa para as quais olhamos) e só em nós mesmos e em nossos amigos vemos a bondade e a beleza (que cada vez são mais uma falsa bondade e uma falsa beleza, construída a nossa imagem, e menos aquelas nascidas do coração de Deus).

E, por último, perdemos a capacidade de construir, pois não agimos mais segundo a lógica da caridade. Não paramos de denunciar o mal, mas não conseguimos edificar o bem. É a tragédia de tantos que denunciam, com toda a justiça, os males do mundo, mas não apontam um caminho novo de construção do bem.

Nesses tempos de medo e raiva, que nossa vida seja definida pelo Amor que constrói um mundo melhor e não pela violência que só denuncia o mal, impotente para construir o bem.

Uma questão de paciência histórica

O Papa Francisco, com uma sabedoria que a Igreja adquiriu observando a história e o fracasso de muitas revoluções, nos lembra sempre da necessidade de termos paciência e tenacidade. Em suas palavras, “o tempo é superior ao espaço” (Evangelii gaudium, EG 222-225). É claro que todos nós gostaríamos de mudanças rápidas e eficazes. Mas as coisas não acontecem assim. Frequentemente “trocamos seis por meia dúzia”. Pior, algumas vezes trocamos “seis por cinco”. Contudo, se hoje trocarmos “seis por seis e meio” e amanhã “seis e meio por sete”, e assim por diante, estaremos construindo um futuro melhor.

A pretensão de querer mudar rapidamente a realidade é uma das maiores razões para nossas desilusões. Achamos que um governante, um partido ou um juiz irão fazer a diferença e resolver nossos problemas. Mas apesar de ser fundamental existir pessoas que façam a diferença, elas sozinhas não mudarão a realidade. Sozinhas ou com todos nós, também não conseguirão mudar radicalmente a realidade num único golpe. A mudança eficaz é um processo continuado que conta com o apoio e a colaboração da maioria.

Francisco, no texto citado, diz que o importante é investir em processos que constroem um povo. Na Fratelli tutti, o Papa diz que “para afirmar que a sociedade é mais do que a mera soma de indivíduos, necessita-se do termo ‘povo’. A verdade é que há fenômenos sociais que estruturam as maiorias, existem megatendências e aspirações comunitárias; além disso, pode-se pensar em objetivos comuns, independentemente das diferenças, para implementar juntos um projeto compartilhado; enfim, é muito difícil projetar algo de grande a longo prazo, se não se consegue torná-lo um sonho coletivo” (FT 157). Toda sociedade está atravessada por contradições e conflitos. Pensar um povo não significa negar os problemas, mas sim reconhecer alguns elementos que podem transcender os conflitos e orientar a construção da sociedade como um todo.

Democracias são mais estáveis, combatem a corrupção e cumprem melhor sua função de garantir o bem comum na medida que são o reflexo da existência desse “povo”, que tem consciência de sua responsabilidade para com a organização da sociedade. Um povo politicamente maduro se reconhece responsável pelo bem comum. Sabe que os governos são o reflexo do compromisso compartilhado e praticado por todos os cidadãos.

No Brasil, tendemos a pensar que é só o governo que tem que zelar pela qualidade de vida dos cidadãos. Ainda somos, nesse aspecto, uma sociedade pouco participativa e pouco responsável pelos destinos da nação. E a contrapartida a essa sociedade pouco participante é um Estado centralizador, sempre com tendências autoritárias. Notem que o autoritarismo não se reflete apenas nos atos ditatoriais ou no desrespeito ao desejo da maioria. Ele está presente, por exemplo, quando escutamos aquela famosa frase “você sabe com quem você está falando?”, ou quando os homens públicos desrespeitam as leis e aos demais cidadãos em função de seu poder institucional.

As pessoas e as instituições

No seu discurso inaugural da Conferência dos Bispos da América Latina e do Caribe, em Aparecida (2007), Bento XVI disse: “As estruturas justas são uma condição sem a qual não é possível uma ordem justa na sociedade. Porém, como nascem? Como funcionam? As estruturas justas […] não nascem nem funcionam sem um consenso moral da sociedade sobre os valores fundamentais e sobre a necessidade de viver estes valores com as necessárias renúncias, inclusive contra o interesse pessoal […] As estruturas justas jamais serão completas de modo definitivo; pela constante evolução da história, hão de ser sempre renovadas e atualizadas; hão de estar animadas sempre por um ethos político e humano, por cuja presença e eficiência se trabalhará cada vez mais”.

As estruturas justas não caem do céu. Ao contrário, precisam ser construídas por pessoas comprometidas com o bem comum, animadas por esse “ethos político e humano”, que – nos dizeres de Francisco – é a alma de um povo. Existe sempre uma retroalimentação em política. Bons líderes criam boas estruturas e essas boas estruturas nos ajudam a escolher bons líderes. Maus líderes criam más estruturas, que não nos permitem escolher bons líderes.

A esperança justa, na política, é aquela que nasce dessa construção cotidiana, que acontece em pequenos passos, no acompanhamento aos trabalhos voltados ao bem comum. Pouco a pouco, novos políticos – mais conscientes e comprometidos – vão ganhando seus espaços. Pouco a pouco, acontecem mudanças institucionais que coíbem os corruptos e dão mais oportunidades aos honestos. Num mandato, nosso candidato está no poder, em outro, está na oposição. Avançamos dois passos, talvez retrocedamos um… O que importa é que caminhamos para uma sociedade melhor.

Quando desanimamos, não é porque não existam coisas boas acontecendo. Desanimamos porque olhamos só para os erros dos poderosos e não vemos as coisas boas que continuam acontecendo, frequentemente pequenas, mas com potencial para crescer. E, frequentemente, não vemos essas coisas boas acontecerem porque não estamos suficientemente envolvidos ou atentos para com os processos – talvez pequenos, mas carregados com um sabor de esperança – que constroem um povo (cf. EG 224).

 

As cartas polêmicas, de bispos e padres, denunciando o governo Bolsonaro

Francisco Borba Ribeiro Neto, sociólogo e biólogo, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP

 

Duas cartas, uma assinada por 152 bispos, outra por 1058 padres, denunciando o caráter antiético do governo Bolsonaro tendem a aumentar ainda mais a polarização e a divisão interna na Igreja Católica, no momento em que nos preparamos para a Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021, cujo tema é “Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor” e o lema “Cristo é a nossa paz: do que era dividido, fez uma unidade”.

Ainda que a missão da Igreja não possa se confundir com a política partidária, os católicos, tanto como cidadãos quanto como seguidores de Cristo, têm a obrigação de denunciar as injustiças e lutar pelo bem comum (cf. Gaudium et spes 75-76, Compêndio da doutrina social da Igreja, CDSI 81-82). Como os governos, sendo quais forem, são criações humanas que jamais estarão totalmente certos ou totalmente errados – ainda que sempre possam estar “mais certos” ou “mais errados” – torna-se difícil encontrar o justo equilíbrio no qual a “denúncia profética” não se torna “propaganda partidária”.

Para os leigos católicos, o problema diante dessas cartas não deveria ser o de julgar se os bispos e padres estão certos ou errados em se posicionar. Esse é, indubitavelmente, seu direito como cidadãos e a maioria das críticas feitas a eles acabaria por aumentar a polarização e a ideologização entre os cristãos. A questão justa deve ser como utilizar essas cartas como instrumentos para um melhor discernimento e para a construção de um caminho unitário em prol do bem comum.

 

Reconhecer a pluralidade para buscar a verdade

A pluralidade é uma marca do catolicismo. As pesquisas políticas antes das eleições, mostram que os votos da comunidade católica tendem a distribuir-se entre vários candidatos, aproximando-se do perfil da população em geral, enquanto as demais confissões religiosas tendem a concentrar mais seus votos em um ou outro candidato.

Em função dessa pluralidade, a grande contribuição dos católicos, na construção de uma sociedade democrática, não reside na radicalização do discurso, mas no diálogo que permite que cada um aprimore sua visão da realidade. O importante não é convencer os eleitores da esquerda de que a esquerda está certa, ou os de direita de que é a direita que está certa.

A grande contribuição acontece quando um eleitor, seja ele de esquerda ou de direita, reconhece (mesmo que seja só em parte) os acertos do lado oposto e os erros de seu lado. Esse reconhecimento, fruto do diálogo e do amor fraterno, permite a superação das ideologias e a correção de rota, num caminho que leva ao bem comum.

 

A lógica do poder versus a lógica do amor

A política partidária tem uma lógica totalmente oposta à do cristianismo. Na luta política, procura-se justificar tudo que é feito pelos correligionários e desmerecer tudo que é feito pelos adversários. O interesse partidário nos leva a negar o bem feito por nossos adversários, ao mesmo tempo que minimizamos as consequências ou até negamos os erros de nossos aliados.

Jesus, por outro lado, ensina: “Amai a vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam… Se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? Também os pecadores amam aos que os amam. E se fizerdes bem aos que vos fazem bem, que recompensa tereis? Também os pecadores fazem o mesmo” (Lc 6, 27-33). Essa lógica, aplicada ao embate político, poderia ser expressa assim: “Se reconheceis apenas o bem feito por seus aliados e só condenais o mal feito por seus adversários, que contribuição dais para a construção da justiça? Também os políticos corruptos, sejam de esquerda, direita ou centro, agem assim”.

Se quisermos construir o bem comum, temos que reconhecer erros e acertos, venham de onde vierem, desde que devidamente fundamentados. Nesse tempo de desinformação generalizada, é difícil acreditar naquilo que se ouve. Mas a busca da verdade em relação aos fatos pode estar exigindo mais esforço, mas permanece possível.

 

A busca da verdade

Nem tudo que nossos amigos dizem é verdade, nem tudo que nossos adversários dizem é mentira. Temos que desconfiar sempre de uma afirmação que não traz dados que a corroborem, bem como daqueles que negam uma ideia, mas não trazem dados para mostrar que ela está errada.

Não é realista acreditar que o mundo todo conspira contra nós; que a comunidade científica, que há séculos promove o desenvolvimento material da humanidade, agora se tornou totalmente mentirosa; que os mesmos jornais que ontem acusavam a esquerda no poder, hoje querem maldosamente atacar a direita.

Temos que ter claro que um mundo de ideologias não será superado por novas ideologias, mas por realidades objetivas onde se constrói o bem comum. Grande parte das mazelas da política brasileira atual nascem da tentativa de contrapor discursos de esquerda com discursos de direita, deixando de lado os problemas reais e as melhores formas de solucioná-los.

 

As críticas amplamente aceitas

Com essas questões de fundo postas, vejamos os pontos abordados nas cartas. Uma análise detalhada de cada tópico foge ao alcance de um único artigo e deve ser feita por cada um, mas algumas observações gerais são possíveis e razoáveis.

Na questão da COVID-19, o presidente apostou na minimização da doença e se mantém ambíguo mesmo depois que até maioria dos governos céticos sobre a pandemia (como Estados Unidos, Inglaterra e Suécia) se renderam à necessidade de isolamento social. A insistência no uso de medicamentos com efeito discutível confunde a opinião pública, mas quanto mais o governo insiste no uso da cloroquina, mais a comunidade científica produz trabalhos corroborando sua ineficiência. Supor que a comunidade científica, todas as agências internacionais e os governos com mais recursos científicos estão iludidos, mentem ou não se importam com o colapso das economias nacionais é tão pouco realista como acreditar ainda hoje que a Terra é plana… Perdoe-me o leitor terraplanista.

Os dados sobre o aumento do desmatamento da Amazônia até agora não foram contestados efetivamente. Alguns autores argumentam, até com bases científicas, que as projeções do INPE podem estar aumentando o problema – mas nenhum mostrou dados e projeções alternativas mostrando que o desmatamento não aumentou na gestão bolsonarista. Pior: até mesmo os empresários que atuam na região sentem-se prejudicados e desconfortáveis com a insistência do governo em negar o aumento do desmatamento naquela região. Prefeririam uma política mais centrada em controlar o desmatamento e valorizar as ações ambientais dos produtores sérios da região.

A gestão do Ministério da Educação também é amplamente reconhecida como desastrosa. O combate à ideologização do ensino deveria acontecer por meio de uma melhoria da qualidade. O que se viu, contudo, foi uma troca de ideologias, com afirmações polêmicas e falta de direcionamento para a resolução dos problemas reais. O peso da ideologia sufoca as iniciativas boas – tanto as do governo atual quanto as dos precedentes.

 

O ponto polêmico

O grande problema, que incomoda a muitos, é que essas cartas condenam “a economia que mata”, nos termos de Francisco (Evangelii gaudium, EG 53). O Papa seria ingênuo, não percebendo que essas palavras abririam a porta para o comunismo, o fim das liberdades individuais e a destruição dos valores cristãos. Será verdade? Vejamos essa passagem de São João Paulo II, em sua viagem ao Brasil de 1991:

“A doutrina social católica repudiou sempre a organização da sociedade baseada num determinado modelo de capitalismo liberal, justamente qualificado de ‘capitalismo selvagem’, que tem como notas dominantes a procura desenfreada do lucro, unida ao desrespeito pelo valor primordial do trabalho e pela dignidade do trabalhador. Esta procura não raro é ‘acompanhada pela corrupção dos poderes públicos e pela difusão de fontes impróprias de enriquecimento e de lucros fáceis, fundados em atividades ilegais’ […] Repudiou, igualmente, a Igreja as soluções perversas do coletivismo marxista, que asfixia a liberdade, sufoca a iniciativa, reduz a pessoa humana à condição de simples peça de uma engrenagem, fomenta o ódio e acaba no empobrecimento, que pretendia superar […] É na fidelidade a Cristo, seu Fundador, que a Igreja, sem propor modelos concretos de organização político-social, oferece, ‘como orientação ideal indispensável, a sua doutrina social’ (Centesimus Annus, CA 43)”.

Se entendemos como “economia que mata” a esse “capitalismo selvagem” aludido por São João Paulo II, temos que reconhecer que ele sempre foi condenado pela doutrina social da Igreja. Denunciá-lo é um dever cristão. Mas, e o perigo da instrumentalização por grupos políticos? As denúncias não serão manipuladas ideologicamente na medida em que vierem acompanhadas de propostas claras para a construção do bem comum.

Denúncias justas devem ser acompanhadas por propostas realistas e um compromisso efetivo. Esse é o grande desafio que as duas cartas, dos bispos e dos padres, lançam particularmente aos leigos, principais responsáveis pelo empenho político cristão: denunciar os erros que existem, propondo alternativas que os superem, sem cair nos erros do passado.