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4 de dezembro de 2019

Natal: esquecer o amor é desfazer-se do homem

Ricardo Gaiotti Silva, advogado, com mestrado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) e em Direito Canônico pela Universidad Pontifícia de Salamanca (Espanha). .
 
A sociedade internacional novamente se depara com inúmeros problemas que nos levam, inclusive, a desacreditar na possibilidade da construção de um mundo verdadeiramente humano, no qual as pessoas possam respeitar e lutar pelos direitos dos homens. Surge então o questionamento: o mundo tem solução? Qual é o remédio para o egoísmo e individualismo presente? A paz é possível?
Foram justamente essas inquietações que levaram o Papa Bento XVI a apresentar, no Natal de 2005, sua primeira encíclica Deus Caritas Est – Deus é amor. O pontífice, naquele momento, apontava que a palavra “amor” estava cada vez mais sendo utilizada de forma descontextualizada. Além disso, o próprio nome de Deus – “amor” estava sendo associado a vingança, ódio e violência. Portanto urgia no mundo, para o Papa, uma mensagem muito concreta sobre o significado e alcance do amor.
De fato, o Papa Bento XVI traz consigo e nos comunica a esperança própria do amor, ou seja, uma esperança que parte do acolhimento do dom gratuito de Deus para como os homens. Uma vez que “Deus tanto amou o mundo, que lhe deu seu Filho único” (Jo 3,16), todos podem responder a esse dom, colaborando uns com os outros na construção de um mundo melhor.
A resposta a este amor torna-se uma proposta concreta para a sociedade, gera concretamente a solidificação de valores almejados por todos como a fraternidade, a tolerância, a paz, a justiça, a honestidade, etc. Assim, fundado na esperança própria do amor, o Papa Bento XVI nos apresentou um caminho de colaboração humana, tendo como ponto de partida a caridade. Por meio dela, toda a sociedade possui um caminho seguro na busca da paz, da justiça, da verdade.
O Papa Bento XVI nos ensinou ainda que o amor – caritas – é sempre necessário, mesmo na sociedade mais justa. Pois, não há qualquer ordenamento estatal justo que possa tornar supérfluo o serviço do amor. Quem quer desfazer-se do amor, prepara-se para se desfazer do homem enquanto homem.
De fato o amor não é uma utopia, mas sim uma resposta a um dom gratuito que recebemos. Isso nos impele a leva-lo para a vida pública, é em meio à comunidade que somos destinados a viver o amor. Falar de uma atitude positiva das sociedades fundadas no amor se torna uma realidade concreta, um convite sábio e exequível na busca de um mundo melhor.
Enfim, se queremos uma sociedade mais justa, devemos primeiramente acreditar no dom do amor. Acolhendo esse mistério somos levados a corresponder ao amor, com um autêntico espírito de fraternidade, pois ela é o remédio que vence o egoísmo. Há uma proposta concreta à qual a sociedade pode se dirigir: a experiência do amor! A esperança é o amor!
Como bem nos ensinou o pontífice, só haverá paz na sociedade humana se o amor estiver presente em cada um dos membros, se em cada um se instaurar a ordem querida por Deus. A paz permanece palavra vazia de sentido, se não se funda na ordem fundada na verdade, se não é construída segundo a justiça, alimentada e consumada na caridade, realizada na liberdade, ou seja, enraizada no amor.
Quem quer desfazer-se do amor, prepara-se para se desfazer do homem enquanto homem!
Publicação original: Jornal “O São Paulo”, edição 3080, 2 a 8 de dezembro de 2015.
Imagem: Sandro Boticelli, Natividade (detalhe), Wikimedia

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