Close

12 de agosto de 2019

A doutrina social e o realismo nos dados sobre desmatamento

Francisco Borba Ribeiro Neto, sociólogo e biólogo, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP

 

Um conjunto de declarações (e algumas ações) do governo fizeram da divulgação de dados ambientais um dos assuntos mais debatidos recentemente na mídia brasileira. A doutrina social da Igreja pode nos ajudar a ter um discernimento sobre essa questão?

O magistério católico, desde Paulo VI, se posiciona em favor da causa ambiental (veja aqui). Assim, a ecologia integral da Laudato si’ (LS, 2015) não pode ser considerada uma “derrapada ideológica” do magistério recente, mas sim o amadurecimento de uma tradição.

 

Realismo e sinceridade

Contudo, como todo tema de interesse social, o debate ambiental é polêmico e ideologicamente contaminado. O próprio Papa Francisco reconhece que “às vezes não se coloca sobre a mesa a informação completa, mas é selecionada de acordo com os próprios interesses, sejam eles políticos, econômicos ou ideológicos” (LS 135).

Essa observação já traz em si um início de resposta para a questão. Temos que procurar sempre as informações completas, tanto aquelas que nos agradam quanto aquelas com as quais inicialmente não concordaríamos. Não se pode ocultar ou negar os dados que nos contrariam, mas precisamos sempre situá-los no contexto mais amplo, para não “comprar gato por lebre”. É isso que devemos entender por um “olhar integral”, realista e não ideológico, dos fatos.

Assim, iniciativas devem basear-se nas análises e pareceres científicos mais embasados, ainda que sempre sujeitos à falibilidade humana. O magistério salienta, porém, que diante dos temas polêmicos devem prevalecer a responsabilidade e a prudência (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 2004, CDSI 469). Num tema controverso, devemos minimizar os riscos e não agir de forma imprudente.

Como tudo isso se aplica à polêmica com dados sobre desmatamento na Amazônia divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE)?

Em primeiro lugar, temos que considerar que esses dados são produzidos segundo metodologias certificadas e acompanhadas pela comunidade científica internacional. Seria irrealista e ideológico negar os dados sem apresentar argumentos técnicos que mostrassem uma adulteração ou falha na obtenção das informações (veja aqui e aqui duas análises das informações que mostram tanto a validade quanto alguns possíveis desvios ideológicos na sua interpretação).

 

Agropecuária e conservação da Amazônia

Tendo os dados bem situados, conhecendo sua representatividade e seu alcance, vem a pergunta: qual o seu significado real para o meio ambiente e a sociedade?

Comparado a outros grandes países do mundo, o Brasil ainda tem uma elevada proporção de áreas preservadas. Isso se deve, contudo, mais à falta de crescimento econômico que ao uso de práticas agrícolas conscientes ao longo da história.

A floresta amazônica, de difícil acesso e ocupação, permanece pouco degradada, mas sua equivalente litorânea, a mata atlântica, em função de uma agricultura predatória, está reduzida a poucas manchas espalhadas pelo País.

Atualmente, contudo, o agronegócio tem adotado práticas sustentáveis e não se pode mais associar diretamente agricultura e degradação. Trata-se de um caminho de toda atividade econômica no mundo: à medida que os problemas ambientais se tornam mais graves, os próprios empresários percebem que ter atitudes conscientes e proativas em relação ao meio ambiente aumentam a produtividade e o valor de seu patrimônio, facilitam a venda de seus produtos e concorrem para a melhoria da qualidade de vida deles próprios e de suas famílias.

Além disso, na região amazônica a produtividade agrícola não aumenta com o desmatamento, pois o importante é a adoção de técnicas de produção adequadas às características do ecossistema, que pode ser muito produtivo, mas também é muito frágil. Tanto é que o valor da produção agrícola na Amazônia só cresceu no período em que o desmatamento mais caiu (2004-2013).

A manutenção de práticas ecológicas sustentáveis é uma condição para que nossos produtos agrícolas e madeiras sejam exportados para os países ricos, que frequentemente impõem barreiras comerciais a produtos e países que degradam os ecossistemas. Vários países exigem certificações ambientais para a compra de nossos produtos. Por isso, para os proprietários rurais, a devastação da floresta não é interessante.

O problema é que a produção agrícola brasileira enfrenta desafios de infraestrutura e produtividade. Para alguns, pode parecer mais tentador aumentar o volume e o lucro com as exportações aumentando a área plantada e relaxando as medidas ambientais que investindo em infraestrutura e ganhos de produtividade. Mais tentador, porém menos eficiente e mais danoso a médio prazo para a economia, a sociedade e o ambiente.

Dizer que toda atividade agropecuária é danosa ao meio ambiente não faria justiça a muitos produtores rurais que buscam desenvolver práticas sustentáveis em suas propriedades. Dizer que todos eles são plenamente confiáveis e que as atividades de monitoramento e fiscalização são desnecessárias ou persecutórias não reconheceria a falibilidade inerente à condição humana. As duas posições seriam desvios ideológicos que não olham a pessoa humana tal qual ela é.

 

Buscar o diálogo

Não se constrói o bem comum demonizando os que pensam diferente, sejam eles pesquisadores, produtores rurais, ambientalistas ou políticos; omitindo ou manipulando dados, seja para minimizar ou maximizar a real dificuldade. Pessoas bem e mal intencionadas existem em todos os lugares, o importante é sempre somar com os que procuram a verdade e o bem comum.

Então, qual é o melhor caminho a seguir? Dialogar, em busca de entendimento e soluções integrais para os problemas; buscar um verdadeiro desenvolvimento tanto econômico quanto social, que leve em conta tanto os potenciais quanto as limitações do meio ambiente.

Trilhar esse caminho de equilíbrio e visão integral não significa ser ambíguo ou débil diante dos desafios da realidade ou dos confrontos ideológicos, mas sim agir com a sabedoria e a fortaleza necessárias para encontrar as reais soluções dos problemas.

 

Veja também: Doutrina social da Igreja e políticas públicas em meio ambiente

 

Foto: Fabian M., Flickr.com 

6 Comments on “A doutrina social e o realismo nos dados sobre desmatamento

Ted Mariano
17 de agosto de 2019 em 15:03

Parabéns texto para equilibrar odesenvolvimento e meio ambiente !!!!!!

Responder
Donato Ferreira
21 de agosto de 2019 em 07:37

Belo artigo, sem vieses ou tendências. Apenas o que de fato importa sabermos…para ação ao bem comum!

Responder
Marcos Gregório
25 de agosto de 2019 em 10:10

Finalmente um texto equilibrado e adequado sobre o assunto!

Responder
Maria Clara
28 de agosto de 2019 em 15:47

Parabéns pelo texto. Foi muito bem explanado em termos de agricultura, solo infértil. Mas e o desmatamento para a pecuária?
E para a mineração? Li um texto de uma bióloga, não sei se, tendencioso, Mas preocupante.

Responder
Borba
28 de agosto de 2019 em 17:19

Oi Maria Clara, o problema para a pecuária é similar ao da agricultura: a maior parte dos solos são muito frágeis e não são produtivos a longo prazo sem um manejo ecologicamente sustentável. Por isso, o mais interessante é aumentar a produção com desenvolvimento de tecnologias apropriadas e não com o aumento da área desmatada. No caso da produção mineral, ela pode ser feita minimizando os danos ambientais ou mesmo ser deixada para o futuro, quando houverem técnicas de exploração mais adequadas. No presente, temos que entender que a floresta é o produto mais rentável que temos para as áreas de floresta tropical da Amazônia. Bem usada, ele pode conviver com o progresso e a melhoria da qualidade de vida da população. O perigo é a exploração inconsequente, que trará lucros apenas para uns poucos e prejuízos para o meio ambiente e todo o povo…

Responder
Klaus Brüschke
4 de setembro de 2019 em 22:31

O texto enseja inúmeras frentes de reflexão, inerentes à reconhecida complexidade do tema.
Já a questão do “realismo” e da cientificidade dos dados – como o autor aponta – deve ser tratada considerando 1) quais são as perguntas às quais determinados dados científicos pretendem resolver e, sobretudo, quais não são respondidas; 2) o quadro de paradigmas e o sistema de crenças e valores do cientista, subjacentes à própria pesquisa bem como à interpretação dos dados.
A isso se soma a guerra de fatos e versões apresentados pelos vários atores envolvidos, inclusive certo jornalismo, que tende a simplificar deveras a questão.
Mas um enfoque com que eu gostaria de contribuir aqui é que o tema da Amazônia concentra – e nesses tempos agudiza – um conflito de visões de mundo (Kulturkampf? Clash of civilization?): no Ocidente construímos um modo de entender o desenvolvimento baseado em valores capitalistas, que vê a natureza como recurso. No caso da Amazônia, isso é agravado com um senso comum de que se trata de um território despovoado (como a Groenlândia, que alguém deseja comprar para lhe explorar tais recursos). Mas a Amazônia é povoada, numa rica sociodiversidade, e seus povos têm outros conceitos de desenvolvimento e bem-estar (como indicado no Instrumento de Trabalho do Sínodo da Amazônia).
Tenho a impressão de que não compreendemos em profundidade a novidade profética da Encíclica Laudato si’, de papa Francisco. Com boa vontade, talvez interpretemos o ensinamento da Igreja como uma espécie de freio ético do capitalismo indômito, promovendo uma economia mais “socialmente responsável” e “ambientalmente sustentável”. Dou-me conta que o papa nos conclama a uma conversão, a enxergarmos, a partir do Evangelho, o ser humano, suas relações sociais e econômicas, o ambiente. É uma mudança disruptiva, mudança de paradigma. Que desafia a construir novos modos de produção, de comercialização de bens e riquezas e distribuição da mais-valia.
A Pan-Amazônia, com suas labaredas e com as labaredas que provoca no cenário político, social e diplomático, estão a clamar por esses novos modos de conceber o desenvolvimento. Ou melhor, no processo dialógico – muito bem apontado por Borba – de construção de novos conceitos, proféticos, de desenvolvimento, os povos pan-amazônicos muito têm a dizer. Assim, um bom começo é ter a atitude de escuta.
E não se deixar intoxicar pela fumaça que tanta retórica por aí provoca.

Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *