O que o Documento de Aparecida diz para cada um de nós?

Em 2007, o CELAM (Conselho Episcopal Latino-americano) realizou a V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, com o lema “Discípulos e missionários de Jesus Cristo, para que Nele nossos povos tenham vida” e que resultou no Documento de Aparecida. O então Cardeal Jorge Mário Bergoglio presidiu a comissão de redação do texto e seu conteúdo tem um vínculo amplamente reconhecido com o pontificado de Francisco. Em 2021, a pedido do Papa, o CELAM iniciou uma ampla retomada continental desse Documento, que culminou num texto, recém-lançado, intitulado “Nossas dívidas com Aparecida: balanço 15 anos depois”.

Como essas reflexões podem ser úteis para cada um de nós? Um dos erros mais comuns, no estudo dos documentos eclesiais, é fazer uma leitura seletiva, onde procuramos as passagens que confirmam nossas ideias prévias e deixamos de lado os trechos que não se adequam a nossos pensamentos. Outro erro comum é fazer uma reflexão genérica, de caráter teológico e sociológico, que não incide em nossa vida. Em oposição a essas duas posturas, aquela justa é a de perguntarmo-nos “o que Deus quer me dizer com esse texto?” – pois, na verdade, nada que diga respeito à Igreja tem sentido se não passar pela conversão de nossos corações.

O discipulado missionário

O ponto de partida do Documento de Aparecida – bem como de toda trajetória religiosa do Papa Francisco – é, sem dúvida alguma, o encontro com Cristo. A pessoa apaixonada espelha, em tudo que faz, a sua paixão. O discípulo, diz Francisco, é aquele que “permanece” com o Senhor, que se deixa guiar por Ele. Não uma postura moralista ou discernimento meramente intelectual, mas um “estar junto”, uma companhia afetiva que ilumina a caminhada.

Esta paixão, este permanecer, é (ou deveria ser) nosso modo de sermos discípulos de Jesus, um dos eixos fundamentais das reflexões de Aparecida. Discursando aos bispos latino-americanos durante a Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro (2013), Francisco propôs critérios que bem poderiam orientar um “exame de consciência” de cada um de nós sobre como vivemos esse discipulado. Em primeiro lugar, o discipulado é “missionário”. Essa paixão por Cristo não nos fecha em nós mesmos, numa postura intimista, mas é vivida indo-se ao encontro do irmão, se ocupando de suas necessidades, comunicando a ele a alegria que vivemos. Quem se fecha em si mesmo, ainda que com boas justificativas, como excesso de trabalho ou saúde precária, não vive plenamente esse “discipulado missionário” – mas, se nos propusermos a tal, Deus nos ajuda a superar qualquer dificuldade e realizar o seguimento a Cristo e o encontro com os irmãos. Nesse discurso aos bispos, o Papa ainda adverte tanto contra as reduções sociologizantes quanto às intimistas (que chamou “ideologização psicológica”) da fé, alerta contra o intelectualismo dos “católicos iluminados” e o desejo de uma “restauração” de disciplinas e valores – que podem até ser justos, mas acabam se confundindo com uma dinâmica meramente humana.

Para que todos tenham vida

O lema de Aparecida, “Discípulos e missionários de Jesus Cristo, para que Nele nossos povos tenham vida”, reafirma a centralidade de Cristo tanto em nossa caminhada humana – é Nele, não em riquezas, prazeres ou ideologias, que temos a vida – quanto na promoção humana, pois o discípulo missionário não pode estar alheio a tudo aquilo que diminui e avilta a vida de nossos povos.

As condições de pobreza material e as injustiças sociais estão entre os maiores desafios a nosso discernimento cristão. Ninguém, em sã consciência, poderá duvidar que tanto a vida terrena de Jesus quanto a atuação histórica da Igreja estão marcadas pelo compromisso para com os mais pobres e fragilizados, sempre na busca da realização da justiça e do amor. Contudo, as formas pelas quais a justiça se realizará e a pobreza será superada são questões polêmicas, carregadas de visões ideológicas e politizações. Muitos cristãos se negam a enfrentar esses problemas, outros abraçam uma posição ideológica que lhes parece conveniente e até instrumentalizam a mensagem cristã para se sentirem legitimados. Nenhuma dessas posições é possível para aquele que deseja viver como um “discípulo missionário”. Somos convidados a enfrentar o risco da ideologização, o aborrecimento causado pelos discursos sectários, as dificuldades e o cansaço do trabalho comprometido com a realização do bem comum.

Um olhar que nasce da fé e da oração

Mas como superar a ameaça da ideologização da fé? No discurso acima citado, Francisco lembra dois aspectos importantes das reflexões em Aparecida, que muitas vezes são perdidas por serem dadas por “óbvias”. Em primeiro lugar, a importância da “oração com o Povo de Deus”, pois os bispos não apenas tinham sua rotina de orações, mas também estavam perto do Santuário e da movimentação e oração dos peregrinos que o visitavam. Depois, lembra que não existe um “ver” neutro, toda compreensão da realidade se dá a partir de um quadro referencial. Então, se pergunta Bergoglio, “com que olhar vamos ver a realidade? Aparecida respondeu: Com o olhar de discípulo”.

Não existe discernimento cristão sem oração – e a oração não é intimista, é um ato íntimo, mas que se conecta a toda a comunidade cristã. Essa postura orante, “em saída”, não determinada apenas por nossos sofrimentos e aspirações, não é óbvia e pode exigir um grande trabalho de conversão de cada um de nós. Por outro lado, nesses tempos de incertezas morais, batalhas ideológicas e polarização política, poder ver o mundo com os olhos de Cristo deveria ser um dos nossos esforços mais importantes.

A Introdução e o primeiro capítulo do Documento de Aparecida são particularmente instrutivos do que seja esse olhar a que se refere o Papa Francisco. Ao retomarem, em rápidas pinceladas, a caminhada da Igreja em nosso continente, os bispos recordam as “luzes e sombras” dessa história, feita por seres humanos e sujeita às nossas contradições e pecados, mas nunca perdem de vista a gratidão e a alegria pelos dons recebidos. Como iriamos ver mais tarde nos vários escritos do Papa Francisco, o Documento nos mostra um olhar cristão que é sempre humilde, nunca triunfante, sempre repleto de fascínio e gratidão pelo amor e pela beleza dos dons recebidos.

Esses capítulos, que podem até parecer óbvios e formais, apontam para uma postura diante da realidade carregada de fascínio pela beleza, cheia de alegria e gratidão pelos dons recebidos, permanentemente comprometida com o bem dos irmãos. É um modo cativante de viver a fé, mais do que suficiente para justificar a retomada do Documento. Como dizem os bispos, citando Bento XVI:

“Nossa maior ameaça é o medíocre pragmatismo da vida cotidiana da Igreja, no qual, aparentemente, tudo procede com normalidade, mas na verdade a fé vai se desgastando e degenerando em mesquinhez. A todos nos toca recomeçar a partir de Cristo, reconhecendo que não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma grande ideia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá um novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação decisiva” (Nº 12).

Francisco Borba Ribeiro Neto
Publicado originalmente em Aleteia

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O atentado aos estudantes no Texas e a ação policial no Rio de Janeiro: uma reflexão sobre o horror e o mal

Terça-feira, 24 de maio, foi um dia trágico. No Texas, um jovem assassinou 19 crianças e 2 adultos; 23 pessoas morreram numa ação policial do BOPE nas favelas do Rio de Janeiro. De um lado, uma sociedade que, mesmo sendo rica e desenvolvida, não consegue atender adequadamente pessoas com distúrbios psicológicos, onde o acesso fácil às armas de fogo se tornou uma ameaça à população. De outro, uma sociedade extremamente desigual, onde as populações pobres vivem simultaneamente sob a ameaça e o fascínio do crime organizado, onde a polícia age com truculência e a juventude muitas vezes olha o futuro com desesperança.

O horror do mal e a mensagem cristã

Atentados aparentemente fortuitos, perpetrados por pessoas que nos parecem desiquilibradas, são aparentemente mais comuns em alguns países, como nos Estados Unidos, onde ocorreram 213 tiroteios em massa só em 2022! Os atentados em escolas são mais frequentes naquele país, mas também ocorrem no Brasil. Nos últimos cinco anos, tivemos quatro atentados a escolas: Goiânia (GO) em 2017, Medianeira (PR) em 2018, Suzano (SP) em 2019 e Saudades (SC) em 2021.

Diante desses episódios, a pessoa de fé não consegue deixar de repetir a pergunta de Bento XVI no Campo Nazista de Extermínio de Judeus em Auschwitz-Birkenau: “Onde estava Deus naqueles dias? Por que Ele silenciou? Como pôde tolerar este excesso de destruição, este triunfo do mal?”. Para os diretamente envolvidos nas tragédias, palavras de consolo pouco adiantam. A solidariedade mais efetiva frequentemente se dá pela oração e, em alguns momentos, por um acontecimento inesperado no qual se vislumbra com mais clareza a presença da própria Misericórdia.

No Catecismo da Igreja Católica, encontramos uma interessante citação de Santo Agostinho: “Deus todo-poderoso […] nunca permitiria que qualquer mal existisse nas suas obras se não fosse suficientemente poderoso e bom para do próprio mal, fazer surgir o bem” (CIC 311). Vivemos nossa fé na esperança dessa revelação da bondade última de Deus, alicerçados num Acontecimento que de alguma forma já se faz presente entre nós, dando força para o presente e perspectiva para o futuro (cf. BENTO XVI. Spe salvi, SS 7-9).

Entender o mal, para saber que caminhos seguir

Ataques a escolas e atentados em locais públicos parecem ser cada vez mais frequentes. Em parte, isso se deve a condições propícias para a divulgação desse tipo de crime. São acontecimentos relativamente raros, mas de grande impacto midiático. A divulgação dos casos, dando notoriedade aos assassinos, e um certo incentivo a atos de violência nas redes sociais e em certos âmbitos da internet criaram um clima que estimula certas pessoas a realizarem tais atos. Isso não quer dizer que se tornam assassinas só por isso, mas esses estímulos podem induzir a manifestação de um comportamento agressivo.

O adensamento populacional e a forma de vida moderna reduziram em muito as oportunidades de encontro e os espaços de convivência. Em meio à multidão, estamos muito mais solitários que nossos antepassados em suas aldeias e comunidades. O anonimato e a aparente irrelevância pessoal acompanham a solidão. Ao mesmo tempo, os ideais de autonomia e autorrealização criaram como que uma obrigação de sucesso e diferenciação, particularmente entre os jovens. Ser um “looser” (perdedor) é a maior desgraça que pode acontecer a um deles.

Diante dessa contradição, da sensação de ser irrelevante, “descartável”, frente à necessidade de se tornar reconhecido e importante para ser amado e valorizado, passam a pulular na sociedade comportamentos extravagantes e grupos de desajustados. Campanhas de ressentimento e ódio nas redes sociais estimulam mais ainda a violência.

Os estudos mostram que os perpetradores de ataques a escolas frequentemente eram jovens tímidos e inseguros, com dificuldade para fazer amigos e sujeitos ao bullying por parte dos colegas. Frequentemente vem de contextos familiares “disfuncionais”, com pais violentos ou ausentes, traumas de infância, inaptidões ou marginalização social. São jovens que quase sempre têm dificuldade de encontrar um sentido e uma esperança na vida. Se julgam incapacitados de terem uma vida normal e procuram culpados para sua condição, podendo atribuir essa culpa a pessoas sem relação com sua história de vida. Importante observar a maioria dos jovens com esse perfil não se torna um assassino violento. Tomarão outra direção na vida e superarão, ao menos em parte, seus problemas.

Como enfrentar o mal?

Como poderemos nos proteger do mal? Como proteger aqueles que amamos? Essa é uma das perguntas mais fundamentais que todos ser humano faz ao longo de sua vida. Programas de saúde, seguradoras e empresas de segurança patrimonial existem e proliferam justamente por causa disso. Mas, conforme lembram os Salmos, quem confia nas próprias forças e nos recursos humanos para garantir sua segurança está se iludindo (cf. Sl 20, 31, 84). Essa não é uma afirmação derrotista, mas um sadio realismo que nos liberta de nossos próprios limites. Aquele que confia verdadeiramente no Senhor não se imobiliza diante dos desafios, mas pode analisá-los com mais tranquilidade e enfrentar as tragédias – quando ocorrem – com mais esperança.

Famílias bem formadas, em condições de acompanhar a vida dos filhos, e um ambiente sadio para crianças e jovens são as melhores defesas contra esses atentados. Mesmo isso não cria uma garantia que essas tragédias não acontecerão em nossos lares ou nossa comunidade. Alguns dos assassinos, nesses ataques a escolas, vinham de famílias consideradas bem formadas e viviam num ambiente sadio. Porém, o investimento nas famílias e no ambiente em que vivem os jovens, quando bem-feito, sempre ajudará a construir um mundo melhor.

Um olhar mais amplo sobre a segurança pública

As diferenças entre as duas realidades, do atentado no Texas e das mortes no Rio de Janeiro, ajudam a compreender que não se pode conquistar a segurança pública apostando na violência, seja pela truculência policial, seja pela ilusória garantia de autodefesa carregando armas. Nossa segurança é o fruto do “desenvolvimento humano integral”, que alcança todas as pessoas, em todas as dimensões de sua vida. Melhoria das condições socioeconômicas, acolhida tanto material quanto afetiva dos jovens, educação aos valores, maior eficiência da polícia e do sistema judiciário, recuperação e reinserção dos criminosos – são muitos aspectos da questão, todos agindo em conjunto.

O debate sobre o porte de armas, independentemente do direito de cada um de nós à autodefesa, tende a ocultar a necessidade de uma ação eficaz do Estado para garantir a segurança. A ênfase nos condicionamentos socioeconômicos muitas vezes oculta tanto a importância da liberdade e da responsabilidade pessoal, quanto as dificuldades enfrentadas pelos agentes da lei. Necessitamos de uma visão integral do problema, que considere todos seus aspectos, iluminados pela justiça e pelo amor.

Encontrar soluções para os problemas de segurança pública não é tarefa da Igreja. Contudo, como observou Bento XVI, a Igreja não pode deixar de se interessar por esta temática, uma vez que a busca da justiça e a promoção da civilização do amor constituem aspectos essenciais da sua missão de proclamar o Evangelho de Jesus Cristo.

Francisco Borba Ribeiro Neto
Publicado originalmente em Aleteia

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